Anúncio

Collapse
No announcement yet.

Entrevista Alan Moore/Revista Kaos

Collapse
X
 
  • Filter
  • Hora
  • Show
Clear All
new posts

  • Entrevista Alan Moore/Revista Kaos

    Entrevista meio velhinha, mas bem interessante, do Moore pra finada revista Kaos!

    [hide:7f379a272c]Por que quadrinhos?

    Imagino que seja porque me liguei em quadrinhos bem jovem, quando tinha cinco ou seis anos. Uma das primeiras formas de leitura à qual fui exposto. Sempre tive um caso de amor infantil com os quadrinhos. Quando fui ficando mais velho e passei a perceber que havia pessoas de fato escrevendo e desenhando essas coisas, comecei a articular ambições de trabalhar nesta área.

    A razão de eu ter permanecido nos quadrinhos é que esta é uma área na qual a maior parte das grandes obras ainda está por ser feita. Há tantos limites a serem quebrados nos quadrinhos, porque eles são um meio relativamente jovem. Senti que talvez pudesse ser mais útil na indústria dos quadrinhos do que em qualquer outro lugar, tive a impressão de que ela oferecia mais oportunidades para inovação genuína.

    Sempre me interessei por outros meios também. Suponho que o primeiro trabalho de verdade que fiz para consumo público foi quando trabalhei com o Laboratório de Artes de Northampton. Os Laboratórios de Arte eram uma espécie de grupos improvisados, não oficiais, surgidos em várias cidades inglesas durante os anos 60. A idéia era produzir arte experimental e, muitas vezes, provocativa. Você acabava fazendo um pouco de tudo: atuar, escrever músicas, realizar performances, poesia e arte visual. Foi onde eu provavelmente formulei minha abordagem sobre arte. Acreditava que qualquer coisa estava ao meu alcance e não havia nada que não permitido fazer. De fato, a maioria destas áreas é bem interessante e recompensadora.

    Sempre estive envolvido com performance, de um jeito ou de outro, desde que era adolescente, com várias bandas, trabalhando como performático solo. Trabalhei com música, e ainda trabalho até certo ponto. Lancei dois ou três CDs ligados a performances que executei. Produzi um pouco de arte: uma capa de CD e uma capa de livro alguns anos atrás. Não tenho tempo de desenhar muito, porque escrever tende a tomar a maior parte do tempo. Mas, basicamente, qualquer outro meio é interessante para mim, os quadrinhos são apenas onde eu explorei mais completamente.

    Deveria ter dito qualquer meio, exceto cinema e televisão. Não quero ter nada a ver com cinema e televisão. De minha parte, sou muito preciosista com meu trabalho. Se eu escrevo um roteiro de quadrinhos, então cada ponto final e vírgula que eu ponho na página vão estar lá na obra impressa. Se escrevo um roteiro de filme, ele vai ser reescrito por outras pessoas duas ou três vezes, e o diretor vai mudá-lo, o pessoal da produção vai mudá-lo e os atores vão mudá-lo.

    Ele vai ter apenas uma semelhança coincidente com que eu escrevi originalmente. Então, a única razão pela qual eu trabalharia em Hollywood seria dinheiro, e esta não é realmente uma razão boa o suficiente para ter que agüentar um monte de porcaria. Para mim, o principal é ter controle total, liberdade total, que é o que eu tenho no meu esquema atual, portanto não tenho o menor interesse sequer em Hollywood. Eles me pediram para fazer vários filmes. Pediram para escrever Robocop 2... Mas realmente não estou interessado.

    Eu escrevi um roteiro uma vez, para Malcom McLaren. Ele me perguntou se eu gostaria de fazer um roteiro para um filme que ele estava realizando, chamado Fashion Beast. Acabei escrevendo o roteiro mais para ver como era escrever um roteiro cinematográfico. E também queria andar com Malcom McLaren, porque ele é um herói pessoal, Malcom é um cara muito interessante e engraçado. Mas o filme nunca foi feito, o que é ótimo. Quer dizer, eu fui pago por ele, tive a chance de escrever um roteiro e ninguém jamais vai vê-lo: é perfeito.

    Se você fosse escrever Watchmen hoje, ele seria diferente?

    Se fosse escrever hoje, escreveria Do Inferno ou coisa assim. Watchmen, como provavelmente qualquer obra, nasceu do seu tempo, naquele período, meados dos anos 80, quando pairava no ar uma sensação de apocalipse nuclear. A guerra fria estava no seu ápice e tentei articular em Watchmen o que estava sentindo naquela época. Eu e Dave Gibbons criamos uma série de artifícios narrativos diferentes para transmitir aquelas idéias e sentimentos. Acho que quando terminamos de fazer Watchmen, eu e Dave estávamos cansados de artifícios narrativos. Eu não queria usar de novo todos aqueles entrecortes engenhosos... Era perfeito para Watchmen, mas assim que terminou, teria sido repetitivo continuar a fazer a mesma coisa. Na época em que os anos 90 começaram, tanto o mundo como eu estávamos em outra. Eu estava interessado em Do Inferno, Garotas Perdidas, minha novela...

    Hoje, a idéia de fazer super-heróis adultos com relevância social parece entediante. Eu não consigo ver sentido nisso. Se eu quero fazer coisas adultas com relevância social, farei num gibi sem super-heróis; se quero fazer uma aventura divertida e interessante, farei num gibi com super-herói.

    Ainda tenho bastante amor e respeito por Watchmen, mas não acho que série poderia ter nascido em qualquer outra época. Ela realmente nasceu da minha situação, da situação do mundo naquele momento. Eu não escreveria de novo. Se eu escrevesse, não seria o mesmo gibi.

    Você lê algum quadrinho hoje?

    Fora do mainstream, eu leio Chris Ware, é uma novidade boa em quadrinhos; Loyd Bridge; a maioria das coisas que a Fantagraphics lança; Daniel Clowes; os criadores alternativos; Robert Crumb sempre. No mainstream, não leio quase nada. Preacher, do Garth Ennis, é uma história de aventura bem-contada e interessante. Acho que ele provavelmente estava certo em acabar com ela, porque não é possível alongar as coisas para sempre. Warren Ellis, que escreve Planetary, The Authority e mais algumas coisas, tem um monte de energia e imaginação. Eu gosto da variedade do Warren. Neil Gaiman, quando faz quadrinhos. Neil é realmente muito bom.

    Você tem uma seleção de obras-primas?

    Spirit, de Will Eisner, e para ser sincero a maioria das coisas que Will Eisner fez. Ver duas edições do Spirit (da Harvey Comics, que foram lançadas aqui nos anos 60) abriu completamente minha cabeça para novas possibilidades do que os quadrinhos podiam fazer. Outro grande seria Harvey Kurtzman, principalmente a Mad. Ela teve provavelmente mais influência sobre mim que Will Eisner. A Mad é provavelmente o meu quadrinho predileto. E o Spirit está lá no alto também...

    Logo em segundo... Comics Arcade, que foi feito por Art Spiegelman e Bill Griffiths nos anos 70. Era uma antologia maravilhosa. Há tantas pessoas... Jack Kirby. Ele era um bom homem, um artista maravilhoso e fez mais para moldar o gênero mainstream de super-heróis do que qualquer outra pessoa. Jack Kirby é uma tremenda fonte de inspiração. O homem parecia um deus, um pequeno e caloroso marinheiro, de bronzeado californiano e cabelo branco. Ele parecia um desenho de Jack Kirby. Um cara realmente maravilhoso.

    Há pessoas também como Hergé. É muito difícil superar Hergé em termos de narrativa clássica de quadrinhos. Os livros de Tintin são espetaculares. Suponho que fui influenciado por quase todo mundo, especialmente pelos maus artistas de quadrinhos. Provavelmente acabei sendo mais influenciado pelo lixo que consumi. Se você vê algo como Harvey Kurtzman, tudo o que se pode fazer é imitá-lo de maneira pouco original; já se você vê algo horrível, então se torna uma inspiração maior. Você pensa: “Eu posso fazer melhor que isso”. É mais encorajador.

    Por que você lançou A voz do fogo como livro e não como quadrinhos?

    Queria fazer um livro, queria ver como seria. Trabalhei em colaboração durante anos, adoro trabalhar em colaboração, mas queria ver como seria somente eu fazendo tudo. Além disso, há certas coisas para as quais a indústria de quadrinhos é boa, que o meio de quadrinhos faz melhor. O tipo de história que eu queria contar em A voz do fogo era também sobre a linguagem, sobre a natureza mutável da linguagem. No primeiro capítulo, há um tipo de linguagem neolítica inventada, que gradualmente muda ao longo do livro. A idéia da linguagem muda, e as vozes dos personagens eram importantes também. Os modos diferentes como eles falavam, de acordo com eras diferentes. Para fazer isso em quadrinhos, eu teria que fazer legendas grandes, os desenhos teriam sido apenas um tipo de adendo. A voz do fogo foi uma obra que eu pude imaginar melhor como um romance. Assim como as performances em CD: eu as imagino melhores como performances em CD. Mesmo assim, Eddie Campbell pegou um dos CDs e o transformou em história em quadrinhos, e ela funcionou muito bem. Demorei cinco anos para fazer esse livro. Sou como uma criança mimada em muitos sentidos; absolutamente tudo é secundário a que eu consiga exatamente o que eu quero. Eu não faço nada que não seja o que eu quero. E é disso que minha obra inteira é feita: egoísmo. Apenas tentar fazer puramente o que eu acredito que deveria estar fazendo. Quaisquer outras considerações, como exposição, dinheiro, essas coisas, nem penso nelas. Estou pensando principalmente sobre a obra, o tempo todo.

    É difícil escrever cinco títulos por mês?

    Ah é! (risos). Sim, é mais difícil do que qualquer coisa que eu já fiz antes. Ao mesmo tempo, tendo que fazer cinco títulos por mês, você descobre que entra numa marcha espécie de marcha acelerada infernal, uma espécie de marcha acelerada de escritor pulp, na qual você consegue apenas entregar as coisas; você não tem tempo para editá-las ou revisá-las, a primeira idéia é a melhor idéia. Mas isso é meio excitante, é uma viagem em altíssima velocidade. E, é claro, estou entregando um montante tremendo de trabalho, que não estaria fazendo de outra maneira, estou bem satisfeito com tudo, estou satisfeito com a qualidade e com a quantidade. Se consigo fazer cinco boas revistas por mês, ou por aí, então acho que deveria mesmo estar fazendo cinco boas revistas por mês. O resto é provavelmente preguiça. Fico tenso às vezes, mas estou gostando muito.

    Você já teve um bloqueio criativo?

    Sou um profissional, venho fazendo isso todo dia pelos últimos 20 anos ou mais. É assim que pago meu aluguel. Eu realmente não tenho tempo para aquela bobagem de artista sensível. Ohhh (fingindo piedade). Eu diria a eles que a ameaça de morar na rua e passar fome é uma ótima razão para concentrar a mente. Especialmente se você tem um par de filhos; dê-lhes um par de filhos que vão depender deles paras as refeições, talvez eles achem uma saída para aquele difícil bloqueio mental. Não, eu não tenho nenhum problema com criatividade mesmo.

    Você tem algum tipo de método, de processo?

    Bem, não é o que se chamaria de método de trabalho, porque muda de um dia para o outro, mas há uma filosofia por trás. Cinco anos atrás, eu decidi me envolver com magia. Em parte, foi porque tendo a ver o processo criativo e o processo mágico como sendo mais ou menos a mesma coisa. É um coelho tirado da cartola, é algo a partir do nada. Você não tem nada na cabeça, daí você tem o princípio de uma idéia, daí você tem uma idéia totalmente formada, daí você tem algo num pedaço de papel e daí você tem um gibi. Algo surgiu do nada. Acho isso um processo profundamente miraculoso. Sei que nós fazemos isso todos os dias, mas não entendemos isso. É por esse motivo que todo mundo diz: “De onde você tira suas idéias?” E ninguém sabe.

    Nós dependemos dessas idéias para viver, e ainda assim não sabemos de onde as tiramos. Magia, para mim, foi uma tentativa de responder essas questões satisfatoriamente. De onde tiro minhas idéias? O que é criatividade? Isso significa que você tem que perguntar coisas como: o que é consciência? E você começa a explorar sua própria consciência de um modo diferente.Um dos meus artistas/ músicos preferidos é Brian Eno, por causa do modo como ele pensa sobre arte. Ele não usa esse enfoque mistificador. Ele não diz: “Meu talento é algo místico e sagrado que nunca poderei entender nem ninguém poderá; é apenas minha musa”. Ele o trata como se fosse um mecânico de motores: “Tudo bem, isso é um motor, se eu entender como ele funciona, serei capaz de usá-lo melhor”. Esse é o enfoque que eu uso. Minha criatividade é uma espécie de máquina, uma espécie de organismo; se eu entender como ela funciona, vou poder usá-la com mais eficiência e serei capaz de fazer coisas mais ambiciosas. A magia tem sido um caminho para que eu começasse a entender os meus próprios processos criativos. É ainda uma coisa em andamento, então eu não poderia alegar que pratico totalmente, mas ao menos sei suficiente para ser capaz de gerar um fluxo infinito de idéias num estalo e mantê-las fluindo.

    Você esteve intimamente envolvido com mágica e teve umas experiências estranhas...

    Bem, deixe-me ver. Dia 7 de janeiro de 1994; eu estava na casa de um amigo, ambos estávamos usando cogumelos de maneira recreativa, não estávamos usando-os de fato com a intenção de fazer magia. Entretanto, algo aconteceu, a que, eu suponho, você diria: “Bem, você tomou drogas, você teve uma alucinação”. Isso é bem razoável, é provavelmente o que aconteceu. A única diferença é que venho tomando drogas desde os 15 anos; tive uma experiência considerável com alucinações. Não descartaria que isso foi alguma espécie de alucinação, mas eu teria que afirmar que foi uma alucinação de uma ordem e classe diferente de quaisquer outras que experimentei antes. A pessoa que estava comigo teve as mesmas alucinações.

    A alucinação é muito complexa para ser explicada brevemente, mas parte do que ela envolvia era a sensação de que nosso espaço e nossa consciência tinham sido penetrados (ou invadidos) por um tipo de presença, que na época relacionei com um deus-serpente romano do século II chamado Glycon, adorado num lugar chamado Malicia Superia, perto de onde ficaria Kosovo. Glycon foi um deus-serpente criado por um homem conhecido como o profeta Alexandre, que havia ido à Macedônia, onde viu os templos de Asclepius, o deus da cura, que é representado por um homem velho com uma serpente ao redor de seu bastão. Nestes templos, eles tinham grandes jibóias domesticadas.

    Alexandre comprou a mais doce e mansa das jibóias e levou-a consigo à Malicia (se não me engano, sua cidade se chamava Telamis).

    O profeta armou uma trapaça maravilhosa: disse a todas as pessoas de Telamis que, ao meio-dia de amanhã, ele ia presidir a segunda vinda do deus Asclepius, na praça do mercado, em público. Alexandre conseguiu juntar uma multidão bem grande. Quando nada aconteceu e a multidão começou a murmurar, ele agachou numa poça, e puxou dela o que era, na verdade, um ovo de ganso que havia previamente esvaziado e depois selado com uma pequena serpente viva dentro. Ele racha o ovo com a unha do polegar e uma pequena e esquisita serpente se arrasta para a palma de sua mão, e clama: “Contemplai: o novo Asclepius!” Ele a leva de volta para a sua casa e, ao final da semana, comunica que a criatura cresceu a um tamanho prodigioso, e que agora tem uma cabeça semi-humana. Então naquela noite no templo é celebrado o primeiro grande ritual de Glycon.

    Podem ter havido drogas envolvidas, principalmente porque há muitos cultos de cogumelos associados com a palavra Asclepius, é engraçado. Alexandre sobe no palco com a cabeça de jibóia presa debaixo do seu braço. Saindo do está uma cabeça artificial, que ele fez: parece uma cobra, mas tem pálpebras, orelhas, narinas e cabelo longo e dourado; as mandíbulas são articuladas, e há um tudo de voz dentro dela. Na meia-luz do templo, Alexandre, o profeta, aparece com uma cobra, ela se move, está claramente viva, sua cauda está se debatendo e a cabeça diz: “Eu sou Glycon, filho de Júpiter, luz do mundo”. E a multidão fica enlouquecida. O culto de Glycon durou por volta de 150 anos, muito além da morte de Alexandre; isso é muito incomum. Então, o deus que eu adoro é uma marionete de mão, é claramente um logro, foi inventada por um charlatão e trapaceiro, no século II em Roma. Tudo bem. Eu não acredito realmente nem estou propenso a acreditar que existiu uma cobra de verdade com cabeça humana e cabelo comprido, que podia falar.

    A idéia por trás da marionete é que é o Deus verdadeiro. Deuses não são físico, todos sabem. Tenho quase certeza de jamais houve um Jesus Cristo; há a idéia de Jesus Cristo e isso é tudo o que é preciso saber. Os deuses são quase como formas de idéias...

    Só um pensamento?

    Eles existem no espaço das idéias. Acho que podem estar vivos, certamente agem como se estivessem vivos, mas existem apenas na mente. O que acho que aconteceu comigo em 1994 é que fui visitado por um tipo de vibração que eu associei com uma energia de cobra. Às vezes ela é mencionada como Asclepius, ou Kundalini... Há vários nomes diferentes para ela.

    Philip K. Dick (autor de contos que deram origem a Blade Runner e Vingador do Futuro) teve uma estranha visão que levou a um colapso esquizofrênico completo, em algum momento dos anos 70. Eu li as cartas dele daquele período. São uma leitura bem arrepiante; ele conta sobre como, de repente, um tipo de inteligência inundou sua mente, uma visão.

    Havia certas coisas nela que eram muito similares a elementos-chave da minha visão: a experiência do tempo ser uma coisa só, um momento só; não há passado, presente ou futuro; há apenas agora, e é a mente consciente que ordena as coisas no passado, presente e futuro. Há outras experiências que ele teve as quais reconheço. Ele diz (e tenha em mente, isto foi logo antes de ele começar a ficar louco) que se tornou ciente do nome da entidade que está tentando contatá-lo, e o nome é Asclepius. Acho que ele mexia com cogumelos também. Foi assustador ler isso. Isso tudo pode ser algo que está completamente na minha mente, na mente de Philip K. Dick, nas mentes das com quem eu fiz isso, mas parece ser real e interessante, parece ser uma linha de estudo continuamente verdadeira, então eu ainda sou um garoto adorador de serpentes.

    Quer dizer, a arte é planejada para fazer algo à sua mente e à sua consciência. Às vezes, é planejada para sobressaltar você, às vezes, para seduzir você. A arte é planejada para produzir mudanças na consciência humana. Por isso, se você a canaliza para tentar efetuar mudanças especificas na consciência humana (basicamente o que um bocado de magia faz), acho que os efeitos podem ser bastante notáveis. Este é um tipo de jornada razoavelmente cheio de meandros, mas é bem isso o que aconteceu comigo no começo do meu interesse por magia.

    Uma vez que eu tenha tido esse evento, posso negar o que tive ou posso tentar descobrir o que ele significou. Escolhi este último. Prossegui fazendo experimentos, com ou sem drogas, e parece funcionar, parece ser real. Ao menos para os meus propósitos, funciona bem.

    Seu interesse por magia nos quadrinhos começou com John Constantine?

    Eu nem tenho certeza de que John Constantine está apenas nos quadrinhos. Criei John Constantine porque Steve Bissette e John Totleben queriam fazer um personagem no Monstro do Pântano que parecesse com Sting.

    Ainda querendo fazer um ocultista inglês da classe trabalhadora. Eu me envolvi muito com o personagem, ele era uma voz forte na minha cabeça. Isso foi antes de eu estar oficialmente envolvido com magia, foi lá nos anos 80.

    Eu acabara de terminar de escrever sobre Constantine no Monstro do Pântano e estava num café em Londres, perto da Abadia de Westminster, sentado no andar de cima. Alguém entrou no restaurante, subiu as escadas, era a cara do John Constantine. O rosto não era bem como o Sting, era mais como o do Constantine: o cabelo espetado, a capa de chuva e o terno. O único detalhe diferente é que ele tinha uma mochila nas costas, mas, pensando bem, isso faz um pouco de sentido. Nessa hora, o homem virou para mim e acenou com a cabeça e sorriu, então deu a volta e foi o outro café fazer sua refeição. Todos os pêlos na minha nuca ficaram em pé. Foi um dos momentos mais assustadores da minha vida. Não soa muito assustador, mas sugiro que você espere até que um personagem que você inventou entre num salão e sorria para você. Eu poderia ter ido falado com ele, e provavelmente esclarecido tudo, mas não fui. Bebi meu chá e sai do restaurante o mais rápido possível.

    Tive outra experiência com Constantine mais adiante, durante um ritual de magia. A certa hora, eu fiz Constantine aparecer na minha frente; ele saiu de uma escuridão dentro da minha cabeça.

    Foi como se, de repente, um fósforo riscasse na escuridão e tudo o que eu conseguia ver era o rosto de Constantine, iluminado pelo fósforo enquanto ele acendia seu cigarro. Ele inclinou-se para frente e disse: “Eu vou te contar o segredo maior da magia: qualquer babaca pode fazê-la”, e sumiu. Essa é uma frase muito profunda, que significa coisas em muitos níveis. Eu venho pensando demais nela deste então...

    Portanto, eu não tenho certeza de que criei Constantine; não tenho certeza se de algum modo ele já não existia antes daquele episódio. Não tão real quanto eu ou você, mas pela metade.

    Constantine é um espectro; eu criei um homúnculo, criei algo que é real e independente de mim. Se isso é verdade ou não, se é apenas o delírio de um velho, eu não saberia dizer para você.

    O que você acha de séries de TV, como Arquivo X, Buffy e Babylon 5?

    Eu vi alguns Arquivo X, é meio que uma glosa americanizada de histórias de seis meses atrás do Fortean Times (jornal de artigos fantásticos), que já li, com essa paranóia meio estúpida dos anos 90. Tipo: se não existe evidência de que há criaturas estranhas com olhos de inseto nos abduzindo e nos fazendo sondas anais, então isso deve querer dizer que o governo está encobrindo tudo. Eu fiz aquela coisa sobre a CIA (Brought to Light com Bill Sienkiewicz), eu sei como o governo funciona. Então, como é que a inteligência americana, que não consegue fazer nada certo, conseguiu abafar com sucesso essas milhares de abduções?

    Babylon 5 e Buffy, a caça-vampiros, não são para mim. Este não é o tipo de ficção científica no qual estou interessado. Eu assisto as séries policiais, NY contra o Crime, Homicídio, coisas assim, alguns desenhos animados como Simpsons e South Park. Mas a maioria da programação eu não assisto mesmo. Acho que a televisão é do mal, é um expediente de Satã (risos). Acho que é algo como 10.000 anos de tempo humano perdido toda noite para a televisão. Só uma pessoa: 10.000 anos. Você poderia ter construído uma civilização nesse tempo. Mas não, estávamos assistindo Coronation Street (novela inglesa que já dura mais de 40 anos). E ela entra nas cabeças de todo mundo; os modos de ver, a política da gente. Não conseguimos eleger mais ninguém a não ser que sejam telegênicos. Se tivéssemos um político brilhante que fosse obeso ou tivesse lábio leporino, não importaria que ele fosse um político brilhante e fosse justamente o que o mundo precisava, nós não conseguiríamos elegê-lo. Enquanto temos uma marionetezinha completamente vazia, escorregadia e artificial como Tony Blair ou Bill Clinton, por eles terem uma certa aparência, sim, vamos elegê-los toda vez. Como Margaret Thatcher: todo mundo a aconselhava como se vestir, como atuar para a televisão, como modular sua voz. Ela praticamente foi nosso primeiro presidente americano. Antes disso, não estávamos realmente seguindo o modelo de política americano.

    Nós temos essa coisa que deveria ser, no máximo, uma forma de entretenimento e, mesmo assim, ela dita a maior parte de nossas vidas. Muitas pessoas não conseguem conceber uma idéia a não ser que a tenham visto na televisão. Eu vi mulheres na televisão que acabaram de ter os filhos mortos num acidente de estrada e a reação da mulher é algo que eu vi em novelas. Não porque as atrizes de novela conseguiram captar algo real, é porque as pessoas acreditam nos personagens de novela e nas emoções que representam mais que do acreditam em suas próprias. Talvez ela quisesse chorar ou fazer ruídos incoerentes, mas não, ela começou: “Oh, Meu Deus! Oh, meu Deus! Não acredito nisso!” Estamos todos começando a virar personagens de uma novela ruim, e isso é preocupante.

    Talvez eu não faça isso, mas no final do ano estou pensando em me livrar da minha TV. Não estou na Internet, não tenho e-mail, não tenho carro, não tenho celular. Acho que vou virar Amish: nenhuma tecnologia depois do cavalo e da charrete. Vai ser divertido. Eu poderia viver assim.

    Que tipo de música você escuta?

    Música ambiente, quando estou trabalhando. É a única coisa que eu consigo ouvir, nem escuto muito dela, para falar a verdade. Eu costumava ouvir canções quando estava trabalhando, mas parei, porque elas têm letras e isso me impede de criar minhas próprias palavras. Então, eu escutava apenas peças instrumentais, mas não podia fazer mais isso, pois elas têm ritmo, isso me impede de criar meus próprios ritmos em prosa. Eu comecei a escutar música ambiente pura. No fim, eu não podia mais fazer isso porque, se ela tem atmosfera, isso me impede de criar uma atmosfera. Então, geralmente não escuto música no trabalho.

    À noite, varia, mas gosto de gente como Captain Beefheart, Velvet Underground, David Bowie, Roxy Music, John Cale. Comprei dois álbuns ontem: Dog Man Star, do Suede: é um grupo legal, num estilo meio retro, meio 1972; e um álbum dos Beatles, Magical Mystery Tour, porque não tenho esse em vinil. Para mim, este é o pináculo psicodélico absoluto. Tudo que os Beatles fizeram depois disso era meio recuo, pastiche, território seguro. Eu gosto de música interessante, gente que está fazendo algo novo. Gostava de punk quando estava rolando, ou pelo menos a ,maior parte dele.

    A maioria das músicas, nesses dias, é apenas recapeamento de algo que foi feito muito melhor há 20, 30 anos atrás. Acho que a garotada de hoje deveria ter coisas melhores para ouvir, eles deveriam ter algo que é deles.

    Acredito que bandas como Oásis são execráveis. Se John Lennon tivesse tomado o mesmo caminho que Noel Gallagher, aí não teríamos tido os Beatles jamais, teríamos reciclado o swing dos anos 30. Se você quer emular um herói artístico, então deveria fazer o que eles fizeram: algo que ninguém jamais viu ou ouviu antes.

    Qual o futuro dos quadrinhos?

    Não faço idéia. Acho que certamente eles têm um futuro. Alguns dizem que todos os quadrinhos serão on-line no futuro, que haverá quadrinhos interativos de computador. Eu não acho essa visão muito atraente.

    Gosto da idéia de artefatos, de algo que eu possa de fato segurar nas mãos. Eu acho isso muito mais confortável; posso me recostar numa cadeira, não tenho que ficar clicando o mouse, posso voltar as páginas. Então, acredito que sempre haverá quadrinhos como artefatos impressos.

    Mas se não houver, não importa muito para mim. Qualquer forma que os quadrinhos tomarem, tenho certeza de que serei capaz de pensar em algum modo de explorar a situação.

    Não tenho nenhuma preocupação real com o futuro. Os quadrinhos podem não existir como meio publicado, podem existir somente na Internet. Neste caso, contornarei o problema de algum modo, com certeza.

    Eu digo uma palavra e você me diz o que vem à mente. Role Playing Games?

    Eu suponho que seja um precursor da realidade virtual. Se é disso que gostam, tudo bem. Eu tenho toda a realidade virtual que preciso num livro. Para mim, um livro é de um nível superior de tecnologia ao de um capacete de realidade virtual, ou um macacão de corpo inteiro. A literatura de fato é uma tecnologia, e é uma tecnologia muito vasta. A literatura tem resolução mais alta do que um videogame ou RPG. Basicamente, RPGs são bem parecidos com batalha naval. Só que é uma partida longa e você pode mover figurinhas de chumbo. Não acho que faça mal, só que não estou interessado realmente neste tipo de interação.

    Computadores.

    Eu tenho um computador, uso como processador de texto e fax. Uso como uma máquina de escrever sofisticada. Eu não tenho nenhum interesse em computadores para nada além disso. Não brinco com jogos, minhas filhas se interessam por eles; elas me mantêm atualizado.

    Magia.

    Eu acredito que tudo neste mundo, toda arte, toda ciência, todo conhecimento, toda atividade humana, quando começou, deve ter sido percebida como mágica. Eu acredito que a literatura e a escrita tenham sido um ato mágico quando foram feitas pela primeira vez; acho que falar teria sido um ato mágico. Dança, desenho, música, ciência, todas essas coisas vieram da magia.

    Acredito que provavelmente é para lá que elas estão indo também. A ciência era um tipo de ramificação bastarda e obscura da magia. Volte 200 anos e todos os cientistas são mágicos, alquimistas. Isaac Newton era um alquimista; ele baseou suas atividades no trabalho científico de John Dee, que passou metade de sua vida tentando compilar a linguagem dos anjos, e era um mágico. Paracelsus, Giordano Bruno, todas essas pessoas eram mágicos. Eu acredito que a ciência foi um tipo de filho bastardo e ingrato, que tentou internar seus pais num hospício e talvez tenha conseguido.

    E, todavia, quanto mais a ciência progride, especialmente quando entramos na área da física quântica, onde o senso comum não se segura de jeito nenhum, as leis da realidade são completamente diferentes, começamos a entrar em algo que é bastante parecido com magia.

    Acho que podemos completar o ciclo, voltar ao ponto de partida; acho que todas as disciplinas humanas poderiam eventualmente ser conciliadas na magia vista como a ciência de tudo, a arte de tudo. Tudo tem relevância, significância mágica, e tudo é importante para a magia.

    O vodu, por exemplo. Os praticantes de vodu no Haiti, quando falam sobre Loa, estão falando sobre seus deuses. Mas passar educação aos filhos, é visto como ter Loa, ter um trabalho, ser capaz de alimentar sua família, cultivar um jardim é ter Loa.

    Tudo é visto como ter os deuses em sim, até o mais simples ato humano. E isto está bem próximo da minha definição de magia também. Tudo é mágico.

    É apenas uma questão de estar acordado o suficiente para perceber isso. [/hide:7f379a272c]
    É fácil quando se sabe.

  • #2
    Acho que a televisão é do mal, é um expediente de Satã (risos). Acho que é algo como 10.000 anos de tempo humano perdido toda noite para a televisão. Só uma pessoa: 10.000 anos. Você poderia ter construído uma civilização nesse tempo. Mas não, estávamos assistindo Coronation Street (novela inglesa que já dura mais de 40 anos). E ela entra nas cabeças de todo mundo; os modos de ver, a política da gente. Não conseguimos eleger mais ninguém a não ser que sejam telegênicos. Se tivéssemos um político brilhante que fosse obeso ou tivesse lábio leporino, não importaria que ele fosse um político brilhante e fosse justamente o que o mundo precisava, nós não conseguiríamos elegê-lo. Enquanto temos uma marionetezinha completamente vazia, escorregadia e artificial como Tony Blair ou Bill Clinton, por eles terem uma certa aparência, sim, vamos elegê-los toda vez.
    Genial esse trecho!

    E as descrições das visões que ele tem em rituais de magia não são nada diferentes das macumbas brazucas. Só muda o nome das entidades.

    Comment


    • #3
      Sera que o gelea tava certo?
      Vencedores usam drogas? Ao menos o Moore disse que usava desde os 15 anos.

      Comment


      • #4
        mas o alan moor é FINO, XAVEKEYRO & ELEGANTE, ele não fica tomando cachaça e rodando até cair e alguém chegar e comer o cu dele: só bebe chá de cogu e com duas mulher ao mesmo tempo.
        Giovanni Giorgio

        Comment


        • #5
          Sou como uma criança mimada em muitos sentidos; absolutamente tudo é secundário a que eu consiga exatamente o que eu quero. Eu não faço nada que não seja o que eu quero. E é disso que minha obra inteira é feita: egoísmo. Apenas tentar fazer puramente o que eu acredito que deveria estar fazendo. Quaisquer outras considerações, como exposição, dinheiro, essas coisas, nem penso nelas. Estou pensando principalmente sobre a obra, o tempo todo.
          Essa parte explica muito sobre as brigas que ele tem com a Marvel e a DC. Ele é um gênio genioso.

          Mas considerando o alto nível de qualidade de suas histórias todo mundo quer trabalhar com ele.

          Imaginem se Loeb fosse genioso assim.

          Teria morrido de fome no primeiro esboço que fez de suas histórias bobinhas.

          Alan Moore PODE!

          Comment


          • #6


            Comment


            • #7
              Alan Moore É DEUS!

              O cara é espetacular, esses dois trechos são fantásticos.

              Nessa hora, o homem virou para mim e acenou com a cabeça e sorriu, então deu a volta e foi o outro café fazer sua refeição. Todos os pêlos na minha nuca ficaram em pé.

              [...]

              Eu tenho toda a realidade virtual que preciso num livro.
              Eu fico pensando qual a sensação de se encontrar um personagem de quadrinhos que você criou, e ele acenar pra ti.
              E a outra vai pra todos esses japas escrotos que acham que RPG é coisinha de videogame e computador.
              RPG de verdade é RPG de mesa porra.

              Comment


              • #8


                Comment


                • #9
                  Postado originalmente por Silver_Surfer
                  Sera que o gelea tava certo?
                  Vencedores usam drogas? Ao menos o Moore disse que usava desde os 15 anos.
                  Alan Moore é um chorão ermitão casado com uma baranga.

                  Ele pode ser chamado de gênio, mas não de winner.
                  É fácil quando se sabe.

                  Comment


                  • #10
                    Postado originalmente por Adrian Veidt
                    Postado originalmente por Silver_Surfer
                    Sera que o gelea tava certo?
                    Vencedores usam drogas? Ao menos o Moore disse que usava desde os 15 anos.
                    Alan Moore é um chorão ermitão casado com uma baranga.

                    Ele pode ser chamado de gênio, mas não de winner.
                    com seus milhões de libras e suas DOGRAS, alan moore pode fazer uma religiao e comer a mulher que quiser. QUE QUISER.
                    Giovanni Giorgio

                    Comment


                    • #11
                      Postado originalmente por Mohamed
                      Essa foi a imagem mais legal em muito tempo dos Simpsons.
                      E a entrevista tá ótima. Especialmente neste trecho:

                      Postado originalmente por [size=6
                      ALAN MOORE[/size] (louvado seja o Seu nome)]Estamos todos começando a virar personagens de uma novela ruim, e isso é preocupante.
                      Fraudes na urna eletrônica. É possível uma democracia assim?
                      http://www.youtube.com/watch?v=0CFFogJqeKU

                      Comment


                      • #12
                        A Maior obra do Moore e V, isso pra mim e obvio, apesar de achar watchmen exepcional, esta abaixo de V, TDK1 e Terra X na minha opniao.

                        Comment


                        • #13
                          Postado originalmente por Mohamed


                          Em que episódio dos Simpsons rola a aparição do MESTRÃO?

                          Comment


                          • #14
                            Você já teve um bloqueio criativo?

                            Sou um profissional, venho fazendo isso todo dia pelos últimos 20 anos ou mais. É assim que pago meu aluguel. Eu realmente não tenho tempo para aquela bobagem de artista sensível. Ohhh (fingindo piedade). Eu diria a eles que a ameaça de morar na rua e passar fome é uma ótima razão para concentrar a mente. Especialmente se você tem um par de filhos; dê-lhes um par de filhos que vão depender deles paras as refeições, talvez eles achem uma saída para aquele difícil bloqueio mental. Não, eu não tenho nenhum problema com criatividade mesmo.


                            E o Jamie Delano tb viu o Constantine.

                            Comment


                            • #15
                              Agora li tudo. O Alan Moore é inteligente demais....

                              Comment

                              Working...
                              X