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Joga a mão pra cima, vai descendo até o chão...

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  • Joga a mão pra cima, vai descendo até o chão...

    Para Hannah:





    Faz muito tempo que eu não me venho perdido por aí, fazendo minhas bobeiras, as traquinagens que me lembravam os tempos de criança, as pirraçadas. Minha mãe tinha se despedido de mim há muito tempo, então, havia me adaptado a outras pessoas, estas, substitutas, uma nova família. Eu havia amadurecido cada vez mais, estava bem cansado para qualquer feito que pudesse entristecer ou alegrar meus familiares. Eu apenas estava interessado em retornar para o Rio de Janeiro são e salvo das férias no Nordeste, especificamente no Sul da Bahia, onde fui para a cadeia exclusivamente por ter metido um soco na cara de um delegado de uma cidadezinha, há alguns quilômetros de Itabuna. Nem me dei o trabalho de contar a minha mãe, já que ela ficaria uma arara. Do ônibus, havia refletido sobre tudo que realizei nesses tempos e fazendo uma “peneira mental” de tudo que prestou. Eu já estava meio dopado com a dose de whisky, esperava que alguma modelo gostosa me acordasse naquele momento. Mas a tal modelo que eu havia pensado era alvo de minha última punheta naquele ônibus parcialmente vazio. Ai, ai,. Agora que retornei à minha cidade natal, ao seio familiar, à rotina entediante de todo santo dia, o que fazer de diferente? Eu deveria esperar um anjo cair do céu e me dar uma vida cheia de desafios? Ora, poderia ser a modelo gostosa ao invés do anjo! Ah, a quem quero enganar...eu sou um puta preguiçoso de qualquer forma.

    Desci na rodoviária, peguei o ônibus para minha casa, situada no bairro do Engenho de Dentro. Eu não morava naquela área próxima à rua Dias da Cruz, era próximo ao estádio recentemente feito, o mesmo era causados das ocasionais quedas de energias às casas que o cerceavam. Sorte que não morava assim tão perto e nem teria paciência o bastante de aturar gritos de torcedores. Suados, falam alto e outras coisinhas mais, nunca me sujeitaria a permanecer próximo a estes caras. Minhas casa situava-se ainda mais próximo da igreja Batista, onde um dos pastores havia sido meu colega. Resolveu me pegar para cristo em uma época em que eu sofria de uma tremenda crise existencial. E até hoje não há sinais de recuperação, continuo o perturbado de sempre. O tal pastor resolveu seguir a Jesus quando sofreu um acidente em que deveria ficar tetraplégico, segundo ele. Sua esposa foi uma das mulheres mais carinhosas que vi em toda esta jovem vida. A mãe que nunca tive. Mas, a partir de certo ponto, sua paciência se esvaiu e esboçou a personalidade de “mãe séria”, pra cima de mim. Acabaram-se os mimos, eu deveria aproveitar deste seu jeito há muito tempo. No tempo em que freqüentei a igreja, várias pessoas perderam a paciência comigo, incluindo os jovens, os quais eu nutria um desprezo, e não fazia o menor esforço para disfarçar. De que adianta um jovem ser cristão se continua o mesmo imbecil gozador de sempre? Acelera, Airton, me erra. A única menina que nutria um interesse amoroso em mim não me agradou. Sempre me olhava de rabo de olho, e eu odiava isso. Quando a coloquei na parede, querendo saber o que ela queria sobre mim o pastor interveio e disse que ela tinha apenas 13 anos. Eu não me sentia bem naquele antro.

    Chegando em casa, soprei aliviado. Demorei um pouco para achar a chave, abri e joguei a mochila no sofá. Tirei minha roupa completamente e me deitei no chão, sentindo aquele geladinho gostoso. Do nada, vi duas pernas do meu lado. Era minha mãe.

    - Bom-dia – disse ela. – Que olho roxo é esse?
    - Mãe, eu não queria mentir pra senhora, mas eu digo que...eu acabei brigando com um policial lá em Buerarema.
    - Não deveria fazer isso, não importa as circunstâncias. Sabe que talvez nem poderia voltar inteiro pro Rio, né?
    - Sei, mas ele avançou em mim, primeiramente. Mas, havia uns 3 anos que eu não descia a mão em alguém. Ao contrário de certas pessoas, não levo desaforo pra casa.
    - Muito obrigada pela parte que me toca.
    - Falando nisso, aquele cara não está mais vindo para cá, né?
    - Olha, eu sei que você nutre algumas rusgas pelo Mário, mas...
    - Mãe, ele vai acabar batendo em você, e a senhora sabe que eu não permitirei um desaforo destes. Não só por ser seu filho, mas é inadmissível que um pé rapado e vagabundo como ele, que nem é de nossa família, vá te desrespeitar. Se ele ainda está vindo, sabe que eu irei tomar alguma precaução.
    - Se ele me bater, eu o denunciarei. Não é no braço que as coisas de resolvem, e olhe que eu sou mais ativa do que você. Bem, eu estou indo ao trabalho, a geladeira está cheia, como hoje você não trabalha, divirta-se assistindo tevê.
    - Falta algo a me dizer.
    - Ah, sim. Sua irmã não quer entrar em contato com você.
    - Sacanagem. Eu esperava que ao menos ela quisesse me ver, fazem 5 anos, o Natal tá chegando, é uma falta de consideração que...
    - Ela já tem 26 anos, como você, filho. Não pode obrigá-la a nada. Esfria a cabeça, tome um banho...tô indo.

    Ai, ai, que coisa. Achava que ao menos algumas coisas mudariam para melhor depois de minha volta ao Rio, mas a realidade é dura e maçante. Apesar de ter mamãe a meu lado e esta resolver muitos de meus problemas, algumas coisas estão longe de seus dedos magros e bem cuidados. Eram coisas pequenas, mas sufocantes, claustrofóbicas. Como minha irmã, por exemplo. O calor me deixava mais tenso ainda, então tomei uma ducha fria, para aliviar cabeça, corpo e mente. Mas, a alma ainda estava fervendo. Minha irmã provavelmente havia se juntado a meus tios, que raramente davam o ar de sua graça lá em casa. Fora ela, havia o namoradinho de mamãe, típico torcedor do Vasco da Gama, bronco e burro. O fato de residirmos próximo ao estádio era mais um motivo para ele entrar na nossa casa, comer da nossa comida, beber nossos destilados e aproveitar de nossa boa vontade. Após o banho, fui ver a geladeira, que estava realmente cheia. Lembrou que eu não ajudava em quase nada, no orçamento da casa. A vodca estava no fim, a cachaça também e vi três garrafas de vinho de abacaxi vazias, sem nenhuma gota. Minha mãe não era, pois o único que bebia tanto lá em casa era eu. Recebi uma ligação de um colega, me convidando para ir ao jogo do Flamengo e Botafogo no Maracanã. Não, cheguei cansado da Bahia, precisava descansar um pouco. Mas, ele reforçou dizendo que poderia me incluir em sua torcida organizada, especializada em meter porrada nos rivais. Era um convite tentador, mas não cedi, para o meu bem. Naquela tarde, só saí de casa para alugar dois DVDs, e me divertia fazendo pipoca. Senti falta de uma pessoa ao meu lado. Fui ver meu computador, dei uma olhada em meu email e vi a mensagem que minha querida irmã tinha mandado para mim, como resposta:

    “Olá, meu amado irmão. Tudo bem com você? Faz muito tempo que nos vemos, porém, eu estou bastante ocupada, trabalhando muito, inclusive nos fins de semana. Pode achar que é mentira minha ou que estou fazendo cu doce para visitá-lo, mas não é verdade. Até poderia te receber, se eu não estivesse tão ocupada, mas creio que ficaria muito chateado se me visse com a sala de estar de minha casa repleta de papéis. Eu daria pouca atenção a você, por isso não posso te ver tão cedo. Espere que um dia, irei te chamar para sair, prometo. Beijos, Paloma.”

    Os mesmos motivos idiotas de sempre. Não dava mais para engolir suas justificativas. Naquela mesma tarde, o carteiro havia chegado com uma encomenda, uma caixa. Assinei e ele cantou pneu. Abri calmamente e vi que era um par de tênis. “Um presente para aliviar nosso sofrimento. Te amo. Paloma”. Está de sacanagem comigo. Era ridícula o bastante para pensar que um par de tênis de marca iria suprir a necessidade de vê-la? Lancei o calçado no lixo, mas após pensar que ele poderia ter um destino melhor e mais útil, o recolhi. Eu tinha colegas, amigos eram poucos, mas obviamente eram de suma importância. Uma menina poderia gostar deste tênis. Dei uma ligada para a casa dela, em que a moça imediatamente atendeu. Marcamos um encontro no dia seguinte, no McDonalds do Méier, o que despertou uma súbita alegria em seu coração. Eu cansei de ir neste estabelecimento, o nojo corria solto, desde os sorrisos forçados das atendentes até o naipe de quem freqüenta aquele lugar. Os comerciais eram ainda mais deprimentes, com aquela maioria branca, classe média-alta e obrigatórios olhos azuis. Ah, me esqueci do sotaque paulistano, urgh! Odeio muito tudo isso. Porém, não custava nada fazer este agrado a quem eu gostava...

    Chegando no local, pedi um milk-shake, para enganar um pouco. Sentei e fiquei observando as pessoas da janela. Haviam 100 reais no bolso – 5 notas de 20 - , eles iriam garantir minha noite nas boates da Zona Sul, isso se eu não estivesse totalmente preguiçoso para ir até lá. E meu nojo para me relacionar com outras pessoas estava cada vez mais latente. Logo, vi uma adolescente lourinha, de bolsa, saia colorida até a perna e uma camisa de estampa engraçada – lembro-me de que era um humorista famoso – . Ela entrou e olhou todo mundo, que devolviam com olhares de desconfiança. É o Rio, fazer o quê...

    - Aqui, Cassandra – acenei, meio envergonhado. O que realmente me envergonhava era o fato das pessoas direcionarem seus olhos para qualquer coisa que se mexia bruscamente. Sinal de que os nossos tempos estão mais que bicudos. Cassandra sentou e parecia bem feliz com o fato de ver o papai aqui. Qualquer pessoa sentiria isso.
    - Uau, você está muito bonito, hoje, sabia? - ela perguntou. - Achei que hoje iria chover, por isso trouxe este pequeno guarda chuva...mas, ainda bem que tá tudo legal, né?
    - Sim, está tudo legal. A sua bolsa está cheia, vai me dizer que...
    - Ah, eu pensei que você iria me encontrar aqui e depois sairíamos imediatamente, por isso, trouxe alguns sanduíches, suco de caju e outras coisinhas. Eu me preocupei com você.
    - Não precisava. Eu tô bebendo esse milk-shake, mas não comi nada, então, poderíamos dar o fora daqui e nos juntarmos a pessoas normais. Eu já estava de saco cheio deste antro, vamos embora.
    - Uau, claro.

    A peguei pela mão, a mesma estava quente, toquei em algumas partes que pareciam...gelatinosas. Até pensei em soltar, mas ela poderia pensar que eu teria nojo de seu corpo, então permaneci sendo o cavalheiro de sempre. Andamos um pouco, onde ela me encheu de histórias e de pitacos em relação a minha profissão - sou crítico de cinema - , e me elogiando sem parar. Acho que tudo tem seu tempo. Por mais que a menina seja linda, se for bajuladora em excesso eu me afasto lentamente. Mas, Cass era uma menina especial e aparentemente carente. Dava para notar na cara da menina que ela precisava de alguém. Andamos mais alguns metros até que demos de cara com um pequeno parque, indo para o bairro de Engenho de Dentro, onde pudemos nos sentar e comer o lanche que ela se empenhou em trazer.

    - Que ar gostoso, aqui nem se compara ao lugar onde nasci. Eu até trouxe um lenço para que possamos colocar os alimentos em cima, só espero que não tenha formigas.
    - Embora não pareça, eu gosto de todo este cuidado que você tem em relação a mim - eu disse, enquanto a ajudava com os sanduíches.
    - Uau, isso é muito adorável - disse Cass, visivelmente encabulada. - Percebi que você é um menino um tanto...sorumbático, não fala muito com as pessoas, parece que escolhe quem vai conversar.
    - É exatamente assim que eu sou. Eu só não quero neguinho falando merda na minha cabeça. Já passei muito por isso e claro que é bastante desagradável. E como não gosto de perder tempo com quem não me merece, dessa areia toda que é peneirada, só fico com quem realmente presta.
    - Você é um senhor arrogante. Não é por isso que está sozinho?
    - Eu não me importo. Uma ou duas pessoas são mais importantes que um grupo falador e metido a engraçadinho. Tudo o que quero é paz e tranquilidade.
    - Entendo. Mas, vamos comer, antes que esfrie. Seu...seu olho tá roxo.Uau.
    - Deixa quieto, foi uma briguinha de nada.
    - Eu fico preocupada com você. Não brigue de novo.
    - Pode deixar, isso foi na Bahia, não ocorrerá de novo, mina.

    Cassandra era uma de minhas pouquíssimas amigas. Sim, a minha arrogância e petulância sempre me impôs uma dificuldade nos relacionamentos. Sempre me pediam para ser mais humilde, mas eu sempre neguei. Numa época em que as pessoas são conformistas em excesso, desde ao governo até a canais em que assistem, fica complicado. Parece que as pessoas fazem questão de mostrar o quão merdas são. E eu pensava que eu era uma pessoa decidida a dizer o que eles deveriam fazer, até que discussões ocorreram e até brigas. Eu estava passando dos limites, perdendo futuros bons amigos, as meninas que eu gostaria de chegar junto eram alvo de cochichos por parte de quem me odiava. E falavam muito mal de mim a ponto delas se convencerem de que realmente eu era um bosta. Mas, eu não sou um bosta, eu sou demais. Que droga, cala-te boca.

    Ao papear e comer bastante, Cass queria descansar. O sol estava ficando bem forte, eram 12:00, estávamos ficando meio sonolentos, a não ser que ela teria colocado alguma bebida alcoólica no suco de caju e não me disse. Ela estava tão chapada que tive de deixá-la ao lado do banco de xadrez velho, amarrei todo o lixo e deixei no latão. E o povo me olhando achando que eu teria feito algo de mal com a menina. "Consegue andar?", perguntei. "Eu apenas estou sonolenta", ela disse, e por fim, caiu no sono. Narcolepsia? Porra, ninguém cai no sono de uma hora para outra dessa forma. Catei suas coisas e a coloquei na minha "carcunda". Fomos embora, descendo a ladeira. Chegando na Dias da Cruz, aquela rua movimentada do Méier, nego não deixava de me olhar. Nem tive como mandar um dedo para eles, e se rolasse porrada por isso, rolaria. Além de arrogante eu era bastante estressado. Sorte de Cass que eu sabia onde ela morava, tal lugar situava-se bem longe dali, na Tijuca. Peguei um ônibus e soltei na rua Almirante Cochrane, onde ela morava. Sua mãe me atendeu.

    - De vez em quando ela apaga, mas não quer dizer porque ficou muito tempo no sol, ou coisa assim.
    - Então, ela tem narcolepsia?
    - Não. Cassandra tem uma doença rara, o médico diagnosticou e suas respostas não foram suficientes, mas ela está se tratando com medicamentos para deixá-la mais "ligada".
    - Já calhou de ocorrer isso quando ela está andando de bicicleta ou na rua?
    - Algumas vezes. Parece que momentos extremos de "paz" a deixam dessa forma. Ela pode dormir praticamente o dia inteiro, mas passa a madrugada inteira jogando videogame ou assistindo séries.
    - Ela tem cara de quem assiste animes (desenhos japoneses) - eu disse, rindo. - Ela não tem um irmão? Cadê seu marido?
    - Ela é minha filha mais velha e meu marido anda viajando. Estávamos querendo nos mudar daqui, pois esta rua é uma das mais violentas da Tijuca, mas o Roberto anda perdendo muito tempo nos enrolando. Ele nasceu aqui, ama esse lugar, daqui, qualquer um poderia entender.
    - É...mas, deu pra ver que a Cass precisa de alguém do lado dela além da senhora.
    - Sim, precisa. Mas, eu trabalho, eu nem deveria estar aqui. Sorte a de vocês que me pegaram nessa hora.
    - Se a senhora quiser, posso aparecer aqui de vez em quando, creio que faria bem à Cassandra. Ela necessita de assistência.

    E ela concordou. Cass seria uma chance de mudar meu comportamento, uma chance de ter novos amigos. Passado é passado, não adianta ficar remoendo uma coisa que não existe chances de mudança. Com minha amiga repousando tranquilamente fui embora e sua mãe se adiantou para o trabalho. Apesar de ter um trabalho, uma nova amiga e grana no bolso, não quer dizer que tudo estava bem. Faltavam coisas, metas a cumprir, a vida estava "rasa" demais para o meu gosto. Gostaria de correr atrás de minha irmã, mas nem sabia por onde começar. É, tá foda.

    Andei a pé da Tijuca para casa. Saí da casa de Cass às 3 da tarde e cheguei às 7 na minha, claro, com algumas paradas necessárias, como uma ida inocente à biblioteca. Após sair da residência da lourinha, acompanhei idosos jogando truco, damas e gamão na Praça Saens Peña. Me perguntei se meu fim seria aquele. Se for, ao menos teria de me divertir a valer, antes. Não poderia ser uma vida vazia. Eu já tinha quem cuidar, mas era pouco, muito pouco. Chegando em casa, o telefone tocou. Atendi e ninguém falou porra nenhuma. Beleza. Desliguei, claro. Tomei uma ducha, de roupa e tudo. A mesma precisava de uma água, eu estava fedendo como um gambá. Afoguei minha solidão numa garafa de gim tônica, resolvi misturar com Coca-Cola. Daí, o telefone tocou novamente.

    - Alô - eu disse. - Vai mandar um trote pro cu da sua m...
    - Calma, cara, desarme-se! Desarme-se! - disse uma voz jovem.
    - Ah, Adriano. Foi você quem me ligou há alguns minutos atrás?
    - Não. Tô te ligando agora pra dizer que vamos fazer uma festinha em homenagem ao Boca, hoje à noite.
    - Faz tempo que eu não apareço aí na porra da Zona Sul, moleque.
    - Engraçado que a Zona Sul combina muito com você: aqui é a terra dos negos de narizes empinados.
    - Hhahaa. A Kátia e a Patrícia vão?
    - Obviamente. Como me disseram que você voltou a se tornar um pobre diabo solitário, tô te convidando. E convidaria mesmo se você estivesse bem. Como foi na Bahia?
    - Uma discussão com um "verme" e um soco na cara. Tá bom ou quer mais?
    - Oh, legal! Quero ver seu olho roxo.
    - Nah, foi o olho do "puliça" que ficou roxo. Mas, eu estou indo, sim.
    - 11 da noite, hein? E nada de encrencar com os mais desinibidos, hein?
    - Tranquilo, tosco.

    Embora eu queira participar da festa, beijar muitas bocas e pegar sapinho, eu estava tão quebrado quanto arroz de terceira. Talvez foi a andança. Argh. Deitei de bruços na cama, espantei os tênis do meu pé e dei uma cochilada. Pensei em que tipo de vida minha irmã gêmea estava levando. Antigamente, éramos tão ligados, como carne e sangue - literalmente - , mas após a separação ela preferiu se manter longe de mim. E eu não estou mais suportando essa mudança repentina. Minha mãe não está nem aí, mas não posso ser igual a ela.

    Acabei por ir à festa.

  • #2
    A tal festinha tinha uma das maiores concentrações de "cool e descolados" por metro quadrado. Cheguei próximo a algumas conversando, o papo era tão fútil e dispensável que saí fora de perto delas rapidinho. Estava procurando meu colega até que o vi paquerando uma menina, bela japonesinha de seios pequenos - o que não é novidade se tratando de japas - , mas durinhos. Ele me viu e foi me cumprimentar.

    - E aí, cara, seja bem-vindo. O que manda de bom? - disse ele, levemente embriagado.
    - Mando as mesmas coisas de sempre, tanto que nem preciso te dizer de novo. Enfim, mal cheguei e estou com fome, a geladeira está cheia?
    - Está...digo, acho que sim, né? Havia comprado queijo, sei que você gosta...
    - Queijo prato? Mudando de assunto, não acha que tem muita gente por aqui?
    - É, um pequeno excesso de contingentes...
    - Vai me dizer que você conhece todo esse pessoal? Se quiser colocá-los pra fora, terá de chamar a polícia.
    - Tô sacando, mas você bem sabe que eu não tolero os "homens". Vou deixar levar, pode comer e beber o que quiser, a casa é sua - disse ele, novamente se aproximando da japinha. Vi que ele estava realmente interessado nela.
    - A casa é minha, sua e de todos aqui dentro.
    - Ah, tem uma menina aqui que disse que te conhece há muito tempo e queria falar com você.
    - Mesmo?

    Daí, ele me levou a uma menina de madeixas praticamente alvas, olhos azuis, com um vestido negro, gargantilha bizarra e meia arrastão. Ora, não queria bater papo com góticos a essa hora. Odeio góticos, ainda mais aquelas bissexuais coxudas. Haja saco pra aguentar.

    - Oi, Lucas. Tudo bem? Se lembra de mim? - disse a menina, tentando ajeitar a bolsa enquanto fala comigo. Vi que ela portava um livro do Harry Potter e umas lupas de diferentes tamanhos. Ops, saiu uma aranha lá de dentro. Que estranha.
    - Não...não lembro muito bem. Mas, já que sabe meu nome...
    - A gente era colega de classe, quando você fazia o ensino médio na Brandão Monteiro, em Benfica, lembra? Se bem que a gente pouco se falou, mas eu percebi que...
    - ...que era melhor não perder a oportunidade de finalemente falar comigo, não?
    - É...me desculpe. O que você vai fazer agora? Vamos conversar?
    - Agora? Qual é, eu vim pra curtir. - e saí fora.

    Fui à geladeira, só tinha uma embalagem branca escondida lá no canto. Era o queijo prato. Sobrou um pouco de vinho e quando eu iria sorvê-lo, um moleque não sei de onde disse que era dele. O empurrei, dizendo que a casa era minha e que ele deveria ficar pianinho, na dele, como deve sempre estar essa cambada de vagabundos. Tentei sentar no sofá, mas o cheiro de maconha imediatamente me espantou. Ai, ai, o que eu iria fazer naquela festa? Teria de fazer como meu amigo, cantar uma das meninas? Eu estava farto de me envolver com adolescentes que não haviam nada a acrescentar além de papos rasos, frios. A piscina do mesmo estava cheia delas, de beleza beeem variada. Uma das mais ridículas ficava quietinha em um extremo da piscina, nem movia a boca. Óbvio que estava mijando. Ainda mais com a coloração amarelo-ouro que saía de seu corpo, logo se misturando à água. Hhaha. Como a sacada ficava há uns 3 metros da piscina, resolvi fazer uma pequena loucura: terminei de digerir o queijo e de tomar o vinho, gritei "Vou pular, hein?", o que de imediato atraiu a atenção do pessoal lá embaixo, tirei meu sapato e ZUM!SPLASH! Pulei. Caí em cima da mijona. Após, dei minhas desculpas (falsas), a acariciei e a abraçei. "Tá tudo bem?", eu disse. "Tô meio zonza. Eu...minhas costas estão doendo". Quando nego disse que iria chamar o médico, óbvio que a coisa iria feder. Disse que era desnecessário, pois eu cuidaria dela com minhas próprias mãos. A coloquei em minhas costas e todos aplaudiram. Bobagem. "Ai, minhas costas estão doendo", ela se queixava. A coloquei em um quarto e tranquei o mesmo - era o quarto dos pais do meu colega - . O junkie que estava lá dentro cheirando uma foi expulso. O nariz dele estava tão vermelho que provavelmente não teria salvação, seria necessário botar platina lá dentro. Lembrou até um filme do Val Kilmer em que um cara já não tem nariz, só tem aqueles dois buracos - vômer - aparecendo. Ou num caso menos grave, o Michael Jackson. A deitei e fiz algumas massagens em suas costas jovens.

    - Você faz massagens tão gostoso - ela disse, sorrindo.
    - Obrigado, caiu nas mãos de um expert. Se importa de conversar enquanto estou botando a mão na massa?
    - Não, pode desembuchar.
    - Esse pessoal todo, vieram com você? De onde eles são?
    - Ué, você é cana (policial)?
    - Não, é que eu sou o melhor amigo do Rocco, provavelmente ele nem conheça a metade dessa cambada. E vi que alguns estão extrapolando os limites do inaceitável, tão destruindo a casa.
    - É verdade, mas os pais dele viajaram. Esse pessoal é da faculdade, como ele convidou 5 pessoas, essas 5 convidaram mais 5 e por aí foi...
    - Que coisa. Sinceramente, eu nunca tive tantos amigos assim. Eu penso que a maioria desse pessoal é um pé no saco...
    - Mas, realmente são. Eu estou com eles porque não gosto de ficar sozinha. Hora ou outra, a solidão bate mais forte e blá, blá, blá, você sabe. E então, se não curte uma bagunçazinha, por quê veio pra cá justamente hoje?
    - Nada pra fazer. Digo, queria conhecer meninas...legais, como você.
    - Olhando pra sua cara de certinho...acho que você tem namorada.
    - Nada, sou um solteirão convicto.
    - Ou ao menos tem alguém apaixonada por você, que anda bem perto de ti...eu nunca acerto minhas previsões. Só não trabalho na televisão porque já tenho grana o suficiente.
    - Huihehehe.
    - Pronto - terminei e dei um beijo em suas costas, "batizando". - Está melhor?
    - Tô, brigadona.
    - Se quiser massagens, é só me mandar um email. [email protected] . Estarei na sua casa a qualquer hora.
    - Deixa eu agradecer da minha forma - e me deu um beijo. Que clichê, né? - Tá bom, assim?
    - Seria bom demais se você dormisse comigo, hoje. Assim, estaria bom.
    - "Dormir" com você? Que antiquado, cara! Tá parecendo um velho falando dessa forma.
    - Tá, tá, a senhora manda.

    Permitiu que eu tirasse seu biquini. Só não fiz um sexo oral na moça pois recordou o momento em que estava tirando água do joelho na piscina. Tomei nojinho. Não tínhamos "Durex" (que é Camisinha em Portugal, hahahah!), então tive que interromper meu amigo na hora da transa do mesmo para ele me dar duas. E assim se seguiu, comi gostoso e dormimos, com direito àquela plaquinha tradicional de "Não perturbe" na maçaneta da porta. Teria de ser perfeito, não? Afinal, eu não era um nerd.

    No dia seguinte, fui levantar. Estava todo moído, parece que fiquei vagando pela redondezas a madrugada inteira. Fui ver o outro lado da cama e a garota já tinha sumido. O quarto estava todo desarrumado, lembro que não fizemos este estrago todo quando afogamos o ganso (essa soou cafona). Meu cabelão desarrumado, e olhe que lembrança ela deixou: sua calcinha usada. E dentro dela, um cartão com o endereço de sua casa e email. Eu nem imaginava que haveria um progresso como esse, mas o que eu faria? Levantar as mãos pro alto e agradecer a Deus, Maomé, Buda, Amaterasu, Meishu-sama, Aparecida, ou algo assim? Talvez quando eu encontrar minha irmã e fazer as pazes com a mesma. Andei a casa e verifiquei que tudo estava bagunçado, com direito aos jovens dormindo no chão e em outros locais. Nego dormia na piscina, porra, quer coisa mais bizarra? E quem foi o idiota que deixou o rádio tocando na Marisa Monte? Vá entender. Procurei a menina, ela realmente saiu fora. Mas, tranquilo, eu tinha o endereço e o email. Esfria a cabeça de cima, amiche.

    Pensei o Natal se aproximando, queria uma coisa melhor que compartilhar presentes (bem, eu só recebo) e comer até o cu fazer bico. Procurava por algo mais alegre, mais gratificante que isso. Nem preciso dizer que a presença de minha irmã seria como atingir o nirvana, pois eu a adorava muito, até que...ah, chega de dizer a mesma coisa. Nem fui acordar meu amigo, a japinha estava literalmente em cima dele, não quis atrapalhar. Ops, hoje é dia do trabalho, então fui para o mesmo com a roupa do corpo.

    Eu estava praticamente com a corda no pescoço, pois além de insultar o chefe - e recheando com desculpas da maior má-vontade - , faltei alguns dias, por motivos pífios. Eu mal me importava com isso, mas haveria por chegar o dia em que mamãe não daria mais comida na minha boca, muito menos cortaria meu bifinho. Então, fizemos um pacto, em que eu iria me firmar no trampo e não falar mais besteira, mas devido a minha personalidade, é a mesma coisa dum padre não rezar a missa. Bem, mas eu não assediava coroinhas, huhehe. Tomei um ônibus até o Centro da cidade, e fui presenteado com um engarrafamento padrão, aqueles em que lhe dá vontade de ir até o cerne da situação - nesse caso, quem causou o imbróglio - e meter uns 3 tiros na cara do infeliz. Te digo que é "do" infeliz, pois quem comete merdas desse tipo é sempre homem. Convivendo por uns minutos com o sovaco fedorendo de quem OBRIGATORIAMENTE deveria tê-lo cheiroso (no caso, um executivo), desci, depois. Passei a rua Urugaiana e seus usuais produtos falsificados e fui pagar uma dúvida pro chefe de uma das lojinhas:

    - Aqui estão os 5 reais - eu disse, dando uma nota para o sujeito, já que comi um x-tudo duplo com 500 ml de morango ao leite e deixei na "pendura". Eu falo "na conta do tesouro", sou maluco, mesmo.
    - Valeu, achei que não iria aparecer, fazem duas semanas...
    - Olha, tá pago, ok? Não precisamos alongar isso. Me vê uma Sprite de 600ml, pra refrescar, por favor. - Ele pegou e disse:
    - 2 reais.
    - Er...pode deixar na conta do tesouro?

    Como sou safado.

    Cheguei no prédio, arrumei meu cabelo na base do improviso (cuspe) e entraram mais três pessoas comigo. Um mulherão na minha frente, uma dama de preto, minha mão coçava. Ao sair, o homem ao meu lado desabafou: "Cara, que cavalona, essa é muito gostosa, hein? Se eu pudesse faria isso e aquilo...". Ninguém merece. Cheguei no escritório dando o obrigatório "bom-dia" e vi que o chefe não tinha chegado. Uma das funcionárias chamada Gisele disse-me que eu precisava assistir mais três filmes, saindo do forno, que iriam ser exibidos no circuito nesta sexta. Tranquilo. Fui dar uma olhada em meu email. Mensagem da Cassandra:

    "Olá, tudo bem?

    Eu peço sinceras desculpas por ter 'dormido' naquela hora, aquilo ocorre de vez em quando. Acho que, como somos bons amigos, terá que se acostumar. Mas, sei que vai fazer um esforço para isso. Eu estive pensando, poderíamos ir ao cinema essa noite ou na quinta-feira, já que sairei mais cedo do colégio. Está bom para você? Irei comprar os ingressos ainda hoje, quero você perto de mim, comentando sobre o filme, comendo e bebendo do meu lado, e...

    Uau, eu sou gamada no seu jeito de ser. Isso é...tão...tão adorável.

    Uau.


    Sabe quando você gosta duma pessoa a ponto de se masturbar por ela? É isso.

    Beijos.
    Cass."


    Agora, fiquei boquiaberto.

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    • #3
      Terminado o assombro inicial em decorrência do email mandado pela minha querida (sem ironia) Cass, notei um bafinho de drops próximo à minha orelha. Era uma das fuxiqueiras do trabalho, chamada Helô. Era uma de minhas colegas, mas o papo miava a partir do momento em que ela falava da vida alheia. E se empenhava com gosto, nisso. Ok, eu também caio quase na mesma prática, porém, sou mais controlado. Seus óculos de aro preto quase caíram em meus ombros, percebi que ela ainda estava lendo o meu email, até que perguntei se a mesma não tinha algo melhor para fazer. E não era a primeira vez que lia minhas correspondências na cara dura:

      - Ah, me desculpe, me desculpe mesmo - disse Helô, se afastando rapidamente e ajeitando os óculos. - Bem, pelo que vi, ela realmente gosta de você, não é?
      - Não, é apenas brincadeira. É uma maluquinha que acabei ficando amigo. Apesar de gostar da menina, não a curto da mesma forma que ela me curte, etc e tal.
      - Você nem sabe mentir, hein? Ainda mais, estou lembrada que você falou no almoço da quinta passada que a Cassandra era a melhor coisa que havia acontecido em sua vida. E foi bem convincente.
      - Eu estava bêbado, como quase sempre. Aliás, fico feliz por estarem me aturando, mesmo quando falo essas besteiradas.
      - Não muda de assunto. Mas, sou eu quem fica feliz, por você já estar se arrumando com uma garotinha, hihihi.
      - Cala a boca.

      Tem coisas que é complicado de eu admitir, como gostar da Cass, por exemplo. Tá certo que ela era uma das raríssimas meninas que me deram uma atenção maior do que sexo, mas tinha dias em que eu pensava: "estou ficando deslumbrado demais com ela". O que na verdade, não era. E "maluquinha" é o cacete.

      No trabalho de hoje, acabei por assistir os dois filmes de ação, que não passaram das explosões, mulherões e porradões. Tá, isso é obrigatório em qualquer filme de ação, mas estas duas porcarias se resumiram apenas à isso. Acessei meu pc e desci a lenha nas duas películas. Disseram que eu estava mau-humorado, mas não. Dei uma saída na hora do almoço em que cheguei em um bar sujão e pedi uma batida de limão. Pretendi experimentar uns petiscos, comi 4 ovos cozidos e uma porção de linguiça. Sugestivo, né? Cass disse que gostaria de ir ao cinema hoje ou na quinta, eu tinha o número do celular da mesma, então só poderia marcar e pronto. Pedi um celular emprestado - não vivo com um porque eu odeio - e liguei. Cassandra me atendeu estando na academia, dizendo-se muito feliz por eu aceitar que fôssemos ao cinema HOJE. Queria acabar logo com isto. O mais estranho é imaginar uma magrelinha avoada como ela malhando. Então, eu devolvi o celular ao barrigudo, terminei meu lanche e retornei ao trabalho. Acabei por sentir umas pontadas nas costelas, me acudiram mas disse que estava bem. Fui ao banheiro e percebi que...minhas (enormes) cicatrizes pareciam ter sido feitas ontem, ou anteontem. Estavam doendo muito. Pensei em minha irmã. Como anda a cicatriz dela?

      Falando na maldita, naquele momento ela estava voltando para o Rio de Janeiro, vindo de um show em São Paulo. Vestida com um colante negro embaixo dum sobretudo bege, bota negra e óculos escuros. Mal pisou em chão carioca e foi cerceada pelos seus fãs, todos amantes do rock independente, aquele rock "cool e descolado" em que a maioria dos fãs moram na Zona Sul carioca e usam AllStar, óculos de aro preto e etc. E passivos, bastante passivos. Saca aquela pessoa que fala baixo e quase sempre não toma uma atitude? É isso. Ela dispensou seguranças, até porque era conhecida mais no ramo alternativo, a Mídia em si ainda não havia envolvido sua vida, por enquanto. Seu agente foi o último a descer, ajeitou seus óculos escuros, tinha um taxi esperando por eles. E foi aquela gritaria tremenda do caminho do ônibus da Itapemirim (executivo, claro!) até o taxi. 10 metros, exatamente. Entrando e indo embora. Sacou de um telefone celular:

      - Olá, mãe, bom-dia - disse ela. - Tudo bem com a senhora?
      - Filha, fiquei surpresa por você ter me ligado a essa hora. Aliás, faz muito tempo que você não me liga!
      - É, me desculpe por demorar. Como tá levando a vida aí no Engenho de Dentro?
      - Está tudo bem, seu irmão está trabalhando duro, mas ainda continua o preguiçoso de sempre.
      - Como assim?
      - Ele não está ajudando no orçamento da casa. Enfim, não é o mais importante, você vai me visitar, hoje?
      - Não, essa semana terei alguns shows para fazer na Zona Sul, então nós poderíamos no ver no sábado. Está bom pra senhora?
      - Sim, claro.
      - Ele ainda quer me ver? Está insistindo nisso?
      - Sim. Ele até está se enturmando com mais pessoas, está namorando com uma menina que vem aqui de vez em quando, mas ele precisa ver você.
      - Que merda.

      O taxi parou em um hotel no Castelo, no centro da cidade. Obviamente, ela teve de passar pelos fãs, visivelmente não estava feliz só pelo fato de saber que seu irmão queria porque queria vê-la. Sua cara de desgosto mostrava o que sentia por isso. Após a mulher adentrar o hotel, tomou o elevador e imediatamente deitou em sua cama. À sua direita, vinho de acabacaxi e frutas em cima do criado-mudo. Pôs as mãos no rosto e pensou em seu irmão.

      "Por quê você quer me rever, imbecil?"

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      • #4
        Minha irmã possuia uma relação de amor e ódio comigo. Tivemos uma excelente infância, não nos faltou nada e éramos mais ou menos famosos até nossa adolescência, quando calharam de nos separar. Fora isso, aparecemos na Mídia por muito tempo, até enjoar. Nossa adolescência se resumiu a isso. Como ela sempre foi a mais talentosa de nós dois, resolveu cantar, mas eu odiava isso. Odiava aqueles holofotes, odiava pessoas dizendo como nos vestimos, como tomávamos banho e nos relacionávamos sexualmente com outras pessoas, esse pessoal não nos conhecia, todos queriam saber para saciar sua curiosidade. E alguns chegaram a até agir violentamente para receber as respostas. Filhos da puta. A paz deu o ar de sua graça somente quando nos separamos. Ela continuou sendo perseguida pelos outros e recebendo holofotes na cara enquanto eu amarguei o ostracismo. Mas, "amarguei" é um pouco forte demais, porém, pode-se dizer que esse ostracismo me fez melhor. Pude ficar mais tempo com minha mãe, mas depois do que ocorreu, a maioria de meus parentes cortaram relações comigo, acharam que era obrigatório permanecer com minha irmã, que estava dando dinheiro, etc. Bando de viados gananciosos. É melhor que não reapareçam em minha vida, mesmo. Achei que minha mãe seguisse o mesmo caminho, mas ela é minha mãe, caramba.

        Naquele dia eu estava cansado demais para fazer qualquer coisa, quanto mais cogitar sair com Cassandra. Ela era uma pessoa muito bacana e não queria perdê-la, mas eu estava bem estafado apóis aquele trabalho. O que fazer, então? Terminado o expediente, fiquei andando pela Cinelândia, onde parei em frente ao Odeon BR, um dos cinemas mais tradicionais do Rio. E quem eu encontro lá na bilheteria:

        - A última seção é a de 21:30, não é? - perguntou Cass, há alguns metros na minha frente.
        - Sim, e o ingresso é 8 reais. 4 reais com a carteirinha de escola.
        - Eu tenho uma carteirinha, peraí - pegou sua carteirinha bem surrada e entregou à bilheteira, uma senhora de meia-idade. Ao ver que a validade da carteirinha tinha vencido, bradou:
        - Essa não vale mais.
        - Mas, porquê não vale?
        - Está vendo aqui atrás? - mostrou - está vencida. O prazo terminou em fevereiro deste ano, como estamos em novembro, você terá de renovar sua carteira!
        - Mas...não custa nada me quebrar um galho só hoje, né? Ninguém ficaria sabendo.
        - A maioria das pessoas atrás de você estão sabendo - disse a bilheteira, apontando para trás de Cass, com a mesma observando os demais compradores que estavam na fila prestando atenção na conversa. - Se eu deixar pra você, terei que deixar pra todo mundo.
        - Tá bom, tudo bem...desculpe. - Cassandra iria sair fora quando eu cheguei e paguei os nossos dois ingressos. Ela ficou olhando para mim, com aquela cara de boba. Após isso, disse "Veja se trata direito as pessoas. Não é xingando e fazendo os outros passar vergonha que vai adiantar. Porra!", e a bilheteira ficou sem graça. Peguei na mão da menina e fomos embora.

        - Uau, eu não sabia que você estava na fila - disse ela, visivelmente surpresa.
        - Não fica surpresa, eu...ia comprar nossos ingressos, mas nem tinha visto você lá antes da velha falar alto com você.
        - É uma mal-educada, mas deixa pra lá. Passou. Eu tenho que ir pro meu curso, a gente se vê às 21:00, aqui?
        - 21:10 está bom, sem mais nem menos. Bom curso para você.
        - Obrigada - e me abraçou. Aquele perfume era bem gostoso. Nos despedimos e eu pensei que seria uma sacanagem de minha parte usar essa menina, seja sexualmente ou para outros fins. Ela era bacana demais.

        Ao andar pelo bairro boêmio e histórico da Lapa, tratei de dar uma volta por onde passava o bonde. Próximo ao término dos Arcos da Lapa indo para Santa Tereza, existe um banquinho e uma mesa de xadrez, já abandonado. Há alguns metros, observei alguns casarões construídos no início do século 20 e que estavam à venda. Recordei-me de que o maior sonho de minha mana era morar em Santa Tereza, mesmo com a crescente violência no bairro, pois era fã de locais bucólicos. E eu compartilhava este desejo com ela. Agora que está famosa, quem sabe, poderá realizar seu sonho? Eu fui direcionado ao ostracismo, e era bom, mas eu mal tinha dinheiro para comprar uma destas casas. A grana que eu recebia era de minha mãe, que achou por bem guardar nossa fortuna, com medo de que eu torrasse tudo em bebedeiras. Como eu era previsível nessa questão, iria gastar, mesmo. Eu já deveria começar a traçar planos para minha vida há muito tempo.

        "Você é um vagabundo", ouvi. Uma voz feminina, de uma mulher bem mais velha. Ao me virar para ver quem teria dito, vi o bonde indo em minha direção, quase me acertou, pois eu estava em pé, parado exatamente na trajetória do mesmo. E seguiu passando pelos Arcos. "Ufs", pensei. Por pouco não fui atropelado. Olhei para a rua e vi uma moça andando, em trajes vitorianos em direção à porta do casarão. "Quem essa maluca pensa que é pra andar dessa forma no século XXI?", pensei. Tem louco pra tudo nessa porra de cidade. Ao abaixar para amarrar meus sapatos, ouvi mais um "Você é um vagabundo". Vindo dessa moça. Corri até ela até que trancou a porta. "Tu me conhece pra me chamar de vagabundo, sua piranha!", bradei. Mas, ela estava correta, oras. Ouvi ela subir para sua varanda, nitidamente não me dando atenção. Puta. Resolvi ir embora quando ela disse: "Vai ficar até quando nessa vidinha de bosta?". Tentei pular seu muro cheio de trepadeiras para dar uma lição na mesma, mas fui presenteado com um balde d'água na cara. Beleeeza. Desci resmungando e jurando vingança.

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        • #5
          Santa Tereza era um bairro muito apreciado por minha família, que por causa de uns contratempos preferiu se instalar no Engenho de Dentro. Por mim, tudo bem. O que eu tinha de bom para fazer naquele bairro a não ser andar pelas ruas, como um turista deslumbrado? Achava que o saudosismo era tudo, naquele lugar. De fato, era. Eu não tinha nada para fazer naquela tarde, meu trabalho tinha terminado e eu não tinha a menor vontade de gastar meu dinheiro com besteiras. Descendo a ladeira de Santa Tereza, passei pela igreja de Nossa Senhora do Desterro e desci até retornar para a Lapa. Mas logo, lembrei-me de uma pessoa que sabia o paradeiro de minha irmã e fui até ela.

          Desci do ônibus no bairro da Tijuca, na rua Dezembargador Isidro. Apertei o interfone do apartamento 302. Alguns minutos depois, atenderam. Sabia que iria atender. “Cara, me desculpe por eu demorar tanto”, disse uma voz masculina, aflita. “Tudo bem, abre aê”. Adentrando, cheguei em seu apartamento.

          - Quando tempo, cara – disse o jovem, vestido com uma camisola.
          - Pelo jeito, você nunca mudou, né? Não me surpreenderia se te visse andando de calcinha por aí.
          - Huhehhe, tem razão. Pode entrar, não repara o cheiro.
          - Incenso? Putz, continuo odiando isso. – eu disse, colocando a mão no nariz. A sala de estar estava uma bagunça, parece que um furação passou por ali. Andei alguns metros até que vejo um homem deitado no quarto dele, nu.
          - Me desculpe, é o meu namorado. Chegou em péssima hora, eu estava pensando em acordá-lo antes de você subir, mas sei que você é apressadinho.
          - Se eu soubesse disso, teria dado uma volta, sem problemas.
          - E então, o que me conta de novo? Veio finalmente pegar o seu baixo?
          - Não, por enquanto. Você ainda não está tocando? Então, quando se enjoar dele, pode me passar. Já tinha adquirido um azul, mas...ah, pode ficar com ele.
          - Brigadinho.
          - Bem, eu queria falar sobre minha irmã. Já faz tempos que não entro aqui, e pelo que me lembro tu era o melhor amigo dela. Lembro ainda mais que a safada não te deixaria na mão, especialmente no sentido financeiro da coisa.
          - Ah, sim, ela me mandou alguns cascalhos quando passou a ficar famosa.
          - E não mandou nada pra mim...
          - Mas, ela gostava de você.
          - Claro que não. A essa altura do campeonato ela já sabe que eu estou afim de falar com ela, até para saber o que acha de mim, e o por quê de ficar escondendo isso de mim o tempo todo. Eu a amava mais do que tudo, não tinha motivos pra agir dessa forma comigo.
          - Você quer que eu te revele onde ela está, exatamente?
          - Sim, isso mesmo. É por isso que eu vim aqui te ver. E também porque eu estava com saudades de você, claro.
          - Tudo bem.

          Então, ele me ajudou a descobrir o paradeiro de minha irmã. Minha mãe dizia que não sabia, pois ela vivia mudando de local, como nômade. Mas, obviamente que não queria me dizer, pois temia que eu entrasse em atrito com ela. Meu amigo gay entrou em seu computador e verificou seu e-mail, enquanto eu estava fazendo uma boquinha assaltando a geladeira do mesmo. É, sempre tivemos essa permissão pra um invadir a vida do outro, mas ele era recatado até demais. Achou o número de telefone do celular dela. Me animei e ele fez a ligação, comigo coladinho, esperando que ela dissesse “alô”.

          - Alô, Paloma falando.
          - Oi, é o Marquinhos – disse ele.
          - Oi, Quinho, tudo bem? Tá precisando de alguma coisa?
          - Não, obrigado. É que tem uma pessoa que queria conversar com você – disse ele, observando minha expressão aflita.
          - E quem é essa pessoa, pode me dizer? Não vale mentir pra mim, hein?
          - Não seja desconfiada. Foi só viajar um pouquinho que você fica dessa forma...
          - Tá bom. Quem é?
          - Er... – Quinho estava sem ter o que dizer, olhou para mim, e eu cochichei: “Diga a verdade”.
          - É o seu irmão.
          - Que merda, cara!
          - Peraí, peraí, ele só quer conversar um pouqui... *click*

          Tu, tu, tu, tu...

          - Me...me desculpa, eu...
          - Tudo bem, não foi culpa sua. – eu disse, tentando engolir minha raiva. – Deixa quieto. Tem um copo d’água?
          - Qual é, você pode pegar qualquer coisa da geladeira, bem. Aliás, deixe que eu pego pra você.
          Pus as mãos em meus cabelos e comecei a girar. Gritei bem alto, explodi. Quando eu iria sair quebrando tudo o que via pela frente, Quinho me segurou.

          - Não é assim que as coisas se resolvem, cara. Ela ainda tá aborrecida com você, deixe a raiva passar.
          - Ela NÃO TEM motivos pra ficar puta comigo! Está me evitando há um tempão, Quinho, há anos! Que porra é essa? Se separou de mim e quando começa a ganhar dinheiro sozinha, a aparecer na Mídia, não me dá mais satisfações!!! Puta que pariu!.
          - Marcos, quem é esse homem que você está agarrando? – disse o namorado dele, que provavelmente acordou com meus gritos.
          - É meu amigo de muito tempo, pode voltar a dormir.
          - Tudo bem. Se acontecer alguma coisa, é só me chamar.
          - Espera aí. Como é que é? Tá me ameaçando? – eu disse, já puto demais e disposto a dar porrada em qualquer um.
          - E se fosse isso, o que você faria?
          - Vamos sair na mão, então?
          - Parem, parem com isso! Alexandre, ele está aborrecido por uma coisa que aconteceu com a irmã dele, não tem nada a ver com o que você possivelmente tá pensando. Fica na sua, volta lá pra dormir e sem mais uma palavra.
          - Tá bom, então. – e voltou lentamente, exibindo seus músculos, como se tivesse me intimidado.

          Após eu rodar a baiana, um copo de água e açúcar. Pra quê a porra do açúcar? Que frescura. Quinho me disse que apesar de entrar em contato com minha irmã de vez em quando, não queria dizer que era conivente com o que ela pensava sobre minha pessoa. Disse-me que eu não deveria me preocupar tanto com ela, ainda mais por ser uma pessoa que não gosta mais de mim, então, para quê perder meu tempo. Estava convencido que, por mim, tudo bem. Só queria saber o motivo, razão e circunstância desse ódio, que a meu ver, é gratuito. Mas, uma coisa é certa, eu não iria passar a maior a minha vida correndo atrás dessa menina. Não, mesmo.

          - Você vai voltar a fazer “aquilo”? – Quinho perguntou.
          - Não sei, já voltei aborrecido da Bahia, não sei o que fazer direito. Aquelas performances, aquele showzinho todo não dava tanto dinheiro. Eu não sinto mais aquele “tesão” em fazer mais shows. Tem o trabalho, a escola...
          - Falando na escola, você anda faltando demais, hein?
          - Sim, não dá mais para olhar na cara daqueles jovens de bosta, cada um mais arrogante que o outro....
          - Heh, você também é jovem, ou se esqueceu?
          - Eu sou jovem, mas sou melhor que todos aqueles almofadinhas!
          - Você é jovem, arrogante e tem uma boa condição financeira. O seu problema está em se relacionar com as pessoas. Sabia que você era anti-social desde quando éramos adolescentes, mas isso ainda está atrasando a sua vida, né? Eu só queria que não te afetasse a ponto de ficar nessa situação.
          - Nada tá me dando tesão, cara. Seja o emprego de crítico, a escola, as pessoas...só estou me dedicando à minha irmã.
          - Seu erro é esse. Espaireça um pouco mais, seu corpo e sua mente necessitam disso. Quando éramos adolescentes, você era um sujeito já fechado, ao contrário dela, mas tá ficando pior ainda. Quem você se apega, hoje em dia? Você costuma sair com alguém, de vez em quando ou ainda perde tempo em salas de bate-papo na internet?
          - Salas de bate-papo são pra fracassados, tarados, pra imbecis. Eu sou melhor do que isso. Eu estou saindo com uma menina, ela parece gostar pra caramba de mim.
          - É mesmo? Qual é o nome dela?
          - Er...Cassandra. Ela é lourinha de cabelos meio cacheados, olhos castanhos, um sorriso que me lembra o Coringa. É delicada pra caralho, um vaso de porcelana em forma humana. Mas, não quer dizer que ela é cheia de “não me toques”, felizmente.
          - Huhehehe. Cara, conselho de amigão que sou: Esquece tua irmã. Ela saberá, por si mesma, que tava te tratando mal este tempo todo e vai se tocar que precisará te ver pessoalmente. Ela irá até você. Tu sabe que sua irmã foi mais de correr atrás das coisas que você, ela sempre foi a parte “pensante”, então, ela pensará bem no que está fazendo. Não fica ansioso, deixa rolar. “Investe” nessa Cassandra, como tu me disse, acho que ela é uma pessoa bacana. Não deixa a oportunidade correr pelas suas mãos. Se até eu me arrumei com o bonitão que está na minha cama, se arrume, também.
          - Vou pensar...
          - Não é pra pensar, é o básico que você precisa saber. Dê um tempo com essa busca, vá viver sua vida. Ok?
          - Tá bom. Você se importaria se eu pegasse minha peruca e minhas roupas do seu armário?
          - Tá dizendo que vai voltar a fazer shows?
          - Sim.

          Embora estivesse ficando velho, ainda teria jeito de executar minhas performances. Retornei para casa e fui descansar. Eu combinei com Quinho de que voltaria a aturar como Lady Mask e novamente faria apresentações nas casas góticas e moderninhas do Rio. Eu precisava de algo para me animar. E gostaria ainda mais de levar uma vida sem que tivesse de depender do dinheiro de mamãe. Falando nela, a própria desligou a televisão quando caí no sono. Será que ela conhecia a pessoa que, em Santa Tereza, me chamou de “vagabundo”? Uma história dessas ainda levaria muito pano pra manga.
          No mesmo dia, Quinho entrou em contato com nossa antiga parceira de show, Ana Terra. Ela quem nos ajudava como DJ, enquanto ele ficava com os instrumentos. Eu era o vocal, sempre ovacionado por minha apresentação teatral. Minha fama não chegou ao ponto de me equiparar a de minha irmã. Quinho estava mais que certo disse que deveria deixar rolar, não poderia forçar um reencontro com ela. É, captei a mensagem, né?

          - E então, você finalmente vai voltar a estudar? – indagou mamãe.
          - Sim, claro. Levei um papo com o Quinho, ele me deu uns conselhos. E também voltarei a fazer shows com minha banda.
          - Só espero que não tenha dificuldades pra acordar cedo, por conta deles.
          - A senhora sabe que não preciso acordar cedo pra ir ao trabalho. Tô tranqüilo, deveria fazer o mesmo que eu.
          - Vai me dizer que...
          - Eu não vou correr atrás da minha irmã. Ela que se dane, tenho uma vida pra tocar. É a oportunidade certa pra senhora dizer: “Esse é meu garoto”.
          - Huhehehe. É mesmo.
          - Vou levar à sério os estudos, o meu trabalho, minha futura namorada...
          - Quem é essa menina?
          - Vai chegar daqui há pouco. Tá atrasada, até.

          A campainha tocou. Era Cassandra. Cassie. Cass.

          - Oi, boa-noite – disse, bem feliz. – Boa-noite, “mãe”.
          - Boa-noite...
          - Cassandra, mas pode me chamar de Cass. E então, tá pronto?
          - Só vou passar um...perfume, volto em 5 minutos – eu disse, constrangido.
          - Fiquei feliz em saber que meu filho está em boas mãos, e não nas mãos de uma punk imprevisível ou de uma funkeira sanguessuga...
          - Seu filho já namorou com mulheres desse tipo? Uau...e fico mais feliz ainda por ele estar comigo, já que serei a última mulher da vida dele.
          - Você tem certeza disso?
          - Sim, tenho – após isso, minha mãe se sentiu desconcertada. Começou a pensar coisas sobre Cass. Voltei correndo, nos despedimos e fomos embora. E mamãe não deixou de passar a noite inteira pensando no que ela disse.

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          • #6
            Ao irmos para o Odeon BR, o cinema da Cinelândia, fiquei reclamando por uns minutos pelo fato do mesmo ser bem longe de onde moramos. Mas, tudo bem, batemos um papo esperto em todo o trajeto. A pauta do assunto foi o que eu iria fazer da vida. Disse a ela o que havia conversado com meu amigo Quinho, incluindo deixar de mendigar a atenção de minha mana. Cass me elogiou por esta iniciativa, e disse que eu deveria me ligar em quem realmente gosta de mim. Obviamente que estava falando dela. No ônibus, tocou minha mão, a segurou, enquanto olhava para mim, e esboçou um sorriso. Esta menina não seria “só” pra namorar. Esta menina não seria “só” pra transar. Esta menina nem tinha um “sex appeal” , mas e daí? A partir do momento em que comecei a refletir como o cafajeste que fui há anos atrás, pedi pra ela me bater. Ela começou a rir e disse que era mais fácil me beijar que me sentar a mão. “Então, me beija”, eu disse. A partir disso, iríamos nos beijar, se o ponto em que iríamos descer não estivesse chegando.

            Estava uma gostosa noite de luar quando chegamos ao Odeon. Fiquei surpreso com a quantidade de gente, não sabia que esta turba inteira iria assistir o filme que escolhemos. Talvez, não estivessem lá apenas para isto. Fui me informar o porquê da massa e disseram-me que uma cantora e atriz famosa iria assistir o filme, algo que não sabíamos. Quando todos começaram a olhar para a direita, havia chegado alguém:

            - Porra, aquela...é a minha irmã!

            Paloma andava com dois homens corpulentos, nem preciso dizer que eram seus seguranças. Mais dois abriram espaço para ela entrar no cinema, e entrou, sobre gritos, declarações de amor e otras coisitas más. Uma equipe de repórteres estava de prontidão, registrando cada acontecimento. Como queria falar com ela mais que tudo, tive de expulsar alguns vermes de minha frente. Ah, como tietes são inúteis, só servem para colocar pão na mesa dos artistas. Empurrei alguns, outros devolveram me empurrando e outros xingando. Normal, também faria a mesma coisa. Deixei Cass lá atrás, até porque pedi que não viesse comigo na investida, pois iria se machucar. Ela só observava meu ato. Após chegar perto de Paloma, gritei seu nome. “Paloma, aqui, aqui!”. E ela me olhou. Cessou seu andar e ficou surpresa com minha aparição, após 5 anos de ausência. Eu iria tocá-la, até que um segurança me disse: “não chegue perto, afaste-se!”. “Ela é minha irmã, cara. É minha irmã”. “Prove”. “Você é minha irmã, não é, Paloma?”

            “Não...”

            E fui empurrado até sair do meio da turba de fãs. Me lançaram no chão. Cassie me pegou, disse que era melhor irmos embora. Achei sensato.

            Tomamos um ônibus para a casa dela. Eu estava totalmente desolado, abalado com o que acabei de ouvir. Minha irmã havia negado seu parentesco comigo. Desabei nos ombros quentes de Cassandra como um bebê chorão, do tipo que só esperava um motivo para cair em prantos, como se estivesse segurado o choro por anos a fio. Mas, em parte, era sério: as lágrimas saíam tão quentes como pingos de fogo. Fui abraçado com todo o amor possível, pude sentir isso. Nem minha mãe abraçava-me daquela forma, e se o fez, deveria tê-lo feito há muitos anos. A própria sempre nutriu uma preferência por Paloma. Não por ser mulher, mas por ser a mais inteligente, a mais ousada, a mais criativa e a mais boazinha. Descemos da condução, entramos na casa, onde a mãe de Cass dormia tranquilamente. “Ela deixaria que você dormisse aqui, simpatizou-se contigo”, me disse. Tomei uma ducha, onde eu não estava tão acostumado a sentir uma casa com um cheiro, um aroma tão feminino e suave. Tão delicado que parecia estarmos em outro mundo. Até a toalha era perfumada e ainda conservava o mesmo odor mesmo sendo esfregada em minhas partes íntimas. Hhaha. Após o banho me senti muito mais leve:

            - Você pode dormir comigo, se quiser – disse.
            - Com sua mãe aqui? Já pensou se ela, de manhã, nos visse dormindo juntos?
            - É...tem toda razão.

            Até que a irmã mais nova dela chegou. Uma linda menininha de cabelos negros longos e franjinha. Parecia uma bonequinha de porcelana.

            - Oi, Cassie. Finalmente arrumou um namoradinho, né?
            - Sua chata, não nos deixe constrangidos – disse Cass, ponto a mão na boca de sua mana.
            - Boa-noite, qual é o nome da princesinha? – eu perguntei.
            - Vera. Mas, sou tão bonita quanto aquela atriz famosa, a minha xará.
            - Hhahah, também acho. Eu vou dormir aqui, hoje. Tudo bem pra você?
            - Claro que sim, tava ficando chato só ter mulher aqui.

            Então, Cass me acomodou em um sofá da sala de estar, após eu jantar, não sabia que a maioria dos pratos que se servem em sua casa era de sua autoria. Vera também se serviu e ficou assistindo tevê até tarde. Dormi.

            No dia seguinte, acordei, mas fiquei surpreso em observar Cassandra dormindo comigo no sofá, de costas para mim. Fiquei levemente excitado ao ver sua bunda imprensada entre minhas pernas. Putz, que macio. Ela estava bastante confortável, roncava baixinho, baixinho. Dei uma olhada no relógio e vi que eram 6 da manhã. Eu queria levantar para trabalhar, mas tive medo de derrubá-la, já que ela estava totalmente colada comigo. Vera nos flagrou juntos no sofá – estava preparada para ir à escola – e disse: “tarado”, rindo. Seria mais complicado ainda se sua mãe nos visse daquela forma. Tentei acordar a menina, até que minha veia tarada quis se manifestar. Como se alguém – ou algo – estivesse me dizendo: “ponha a mão na buceta dela, ponha a mão na buceta dela!”. E ela estava apenas de calcinha e sutiã. Acariciei suas coxas enquanto dizia: “Acorde, Cassie, eu preciso trabalhar” suavemente. Despertou.

            - Oh..Uau, me desculpe dormir com você sem permissão.
            - Tudo bem, foi maravilhoso.
            - Foi...?
            - Sim, foi. Pra quê mentir, né? Bem, eu preciso trabalhar, tenho de estar às 8 da manhã lá.
            - Não vai embora sem tomar café conosco, né?

            A minha sorte é que sua mãe havia acordado 10 minutos depois. Ao tomar café com a família, percebi que a vida de Cassandra era serena, simples, tomada por uma feminilidade suave. Me senti um estranho no ninho, porém, achei cedo estar naquele local. Vera comia comida pesada, assim como sua mãe e Cassie. Fiquei estupefato, pois ao menos no Ocidente, se come pão, frios, manteiga e bolo – quando tem – no café da manhã. Experimentar viver por algumas horas na casa de minha melhor amiga foi como viver uma outra cultura, como se um brasileiro fosse viver no Japão ou em Papua Nova Guiné, com a diferença de que as mulheres da casa não eram inexpressivas, muito menos canibais. Comemos arroz, feijão, salada de alface, tomate, cebola, peixe frito e purê de espinafre. Tomamos suco de laranja e comemos pudim de leite, de sobremesa. “Você me disse um dia que adorava pudim de leite, sorte sua que fizemos”, disse. No final, me despedi de Vera e de sua mãe. Cass queria me levar ao trabalho no carro de sua mãe. Disse que não necessitava, mas ela insistiu, dizendo que era palhaçada recusar uma ajuda. Chegando lá:

            - Muito obrigado por tudo o que você está fazendo por mim. – eu disse.
            - De nada. Sempre farei. Eu gosto muito de você, mas que de mim.
            - Não precisa exagerar.
            - Não é exagero, nunca falei sério em toda essa minha vida. Não se pode viver sozinho, né?
            - Sei, mas isso soou meio clichê.
            - Huehehe, é mesmo. Tô fraca de criar frases criativas, por hoje. Não sabia que Vera gostaria de você tão rápido, ela é uma menina normalmente arredia.
            - Ah, ela viu que eu era um sujeito bom e acima das expectativas. Eu sou demais.
            - Huhehehe. Um beijo de despedida – e Cass me beijou na boca. – Não era preciso pedir pra te beijar, né?
            - Hum...não.
            - Bom menino. Vá lá, bom trabalho.
            - Mais uma vez, obrigado. – saí do carro – Um Fiat Palio negro – e ela foi embora. Meus colegas de trabalho observaram tudo e disseram que eu me arrumei na vida, finalmente.
            Não, não me arrumei, não.

            Fui fazendo meu trabalho enquanto refletia o fato de minha irmã ter me rejeitado. Liguei para minha mãe comentando o fato, e ela me disse que eu deveria ficar calmo, até porque, poderia ser um ato impensado, fruto de um possível nervosismo, naquele festival. Ok, mas não engoli. Embora eu sempre tenha sido mais arrogante que Paloma, eu era mais humano. Paloma sempre foi a mais inteligente, porém, era mais fria e calculista. E me rejeitou inúmeras vezes, quando vivíamos juntos, mas naquele tempo éramos colados um no outro, não havia como nos separarmos. E toda vez que penso no passado, acaricio minha enorme cicatriz. Paloma também tem uma cicatriz praticamente igual a minha. E SEI que quando lembra dos tempos em que vivíamos juntos, dava a mesma atenção à sua. Tínhamos isso em comum, além do fato de sermos irmãos. Hoje era o dia do pagamento, lembrei isso quando um de meus colegas de trabalho mostrou-me a grana. 500 reais. Fui tomar um cafezinho. O Natal estava chegando, mas o que fazer? Tudo o que eu queria era não repetir a “campanha de Natal” do ano passado, em que eu passei a “noite feliz” sem porra nenhuma pra fazer. Não fui à casa de meus amigos – a maioria havia viajado – naquele tempo ainda não havia conhecido Cass e comecei a amargar o sucesso de “cantriz” de minha irmã. Minha noite de Natal se resumiu a uma transa com uma prostituta da Vila Mimosa (área de meretrício carioca), que havia disponibilizado mais 20 minutos de “presente”. O Ano Novo foi mais uma bosta completa. Quer coisa pior que ficar trancado em casa, assistindo os fogos da Praia de Copacabana pela Globo? Fazer a contagem regressiva feito um imbecil e comemorar, sozinho, com um refrigerante vagabundo e um pernil? Até minha mãe havia se afastado de mim naquele tempo. Hoje, a coisa mudou ao menos 30%, mas se eu deixar, acaba acontecendo a mesma coisa que no ano passado. E isso, eu só considero para meus inimigos.

            O fato de ter uma pessoa tão legal e como Cassandra me deixava mais leve, mais feliz e simpático, coisa eu naturalmente não sou. Esta sexta-feira, os filmes que havia resenhado estrearam no circuito: “Porradas e Risos”, dum diretor americano acostumado a filmes violentos e de poucos diálogos decentes. E mais uma comédia romântica adolescente chamada “este é MAIS um besteirol americano”, com as usuais sensualidade, escatologia e sexo. Seria uma bela idiotice se eu e ela víssemos estes filmes, até porque a mesma sempre preferiu películas melhores que estas. Eu, também. Tivemos de nos deslocar até a Zona Sul para assistirmos filmes melhores, de bom roteiro. Começou a chover, eu não tinha trazido guarda-chuva algum, até que ela resolveu comprar de um camelô, que vendia a 5 reais. E andamos juntinhos. Uma das coisas que eu mais detestava era o fato dos outros direcionarem seus olhos para nós. Porém, isso já ocorreu antes, quando já tive ficantes. É um processo natural, porém, nunca gostei e nunca fitei nenhum casal. Só o fato de passar por um se beijando me deixava puto. Algumas pessoas fazem questão de expor seu “amor” para todos, como se todos tivessem a obrigação de presenciá-los. Já tive vontade de sentar a mão na cara de um destes desgraçados, hoje, quando vejo alguém se beijando, eu cuspo no chão, como prova de desprezo e escárnio. Embora seja um motivo estúpido para se preocupar, realmente eu me emputeço com essas coisas.

            Chegamos ao Unibanco Artiplex, em Botafogo, onde já havia uma aglomeração na entrada do cinema. Olhe como os classe-média da Zona Sul se vestem bem. Os mais jovens, com seus indefectíveis “All Star”, camisa pólo apertadinha, jeans, cabelos ensebados e óculos de aro negro. Seu estilo de conversa era tão interessante e eles riam de coisas tão engraçadas que comecei a bocejar, só de provocação. Homens maduros de terninho, mulheres emperiquitadas...mas eu não saí do meu tão querido covil para reparar em pessoas tão diferentes de mim. Eu não deveria me importar. Pagamos nosso ingresso e fomos ver o filme, um drama francês sobre um homem que perde o emprego por alguém mais jovem e qualificado e desesperado, começa a eliminar – literalmente – os futuros concorrentes do mesmo emprego. Cass riu bastante, ao contrário de mim, que nas cenas mais engraçadas – e o filme tinha várias – soltava uma risadinha tímida. Após 2 horas de filme, nos sentimos realizados, era a melhor película que eu já tinha assistido em anos. Isso porque as distribuidoras se empenham em trazer porcaria para nós. Nos demos as mãos e quando íamos embora fomos abordados por um casal jovem, devidamente vestidos como eu retratei há algumas frases atrás:

            - Você é o Lucas Verdun! – disse o homem. – O crítico da revista Civil!
            - Sim, sou eu, mesmo – eu disse, calmamente.
            - Vocês estão indo para casa, agora?
            - É...porquê?
            - Eu queria conversar com você, há muito tempo que sou seu fã, venho colecionando suas críticas, cara. Vamos fazer um lanche, eu faço questão de pagar a conta, pode deixar comigo – disse ele, sorridente e com a mulher igualmente feliz. Realmente, eles queriam a minha presença, nem que fosse por alguns minutos. Como não sou nenhuma celebridade...
            - Vamos comer alguma coisa com eles. Literalmente, não custa nada, huhehehe – disse Cassie.
            - Tem razão.

            Então, adentramos em uma lanchonete na rua Voluntários da Pátria, alguns metros do cinema. A chuva tinha dado uma trégua, nos acomodamos em uma mesa e começamos a conversar.

            - Pode pedir o que quiser, o meu nome é Ricardo – disse ele, empolgado.
            - Ok. Aceita um sanduíche natural, Cass? – perguntei.
            - Pode ser. E um suco de kiwi.
            - Eu queria um x-tudo com muita cebola e um copo grande de Coca Cola.
            - Eu também pedirei o mesmo, e você, querida?
            - Uma água com gás.

            Comendo e conversando...

            - Sabe, Lucas, adorei sua última crítica, quando você desceu a lenha naqueles filmes de ação e comédia adolescente. Nenhuma pessoa normal se dignaria a assistir aquelas merdas. Sabe, é filme pra nego de Zona Oeste assistir.
            - Mesmo? Não sabia que havia esta divisão de gêneros de filme para o tipo de gente que assiste – eu disse.
            - Cara, antes destes estrearem no circuito normal, já havia baixado na internet, por imposição de meu ex-amigo, que mora em Bangu. Você sabe que o pessoal daquele lugar e dos arredores costumam gostar desse tipo de filme.
            - Ricardo, um erro que você está cometendo é dizer que tal gente de tal bairro só curte tal filme. O público do Rio é bem diversificado. Existem pessoas daqui que gostam de filmes de ação descerebrada e os que curtem filmes alternativos. Independente do lugar de onde moram.
            - Não, isso não é um erro. Não tá sacando que as distribuidoras nunca colocam um filme alternativo praquelas bandas? Que só colocam aqui? Eles sabem que se mandar um filme alternativo pra lá, pra Baixada Fluminense, ninguém irá assistir. Todo mundo sabe disso, pô!
            - Acho que você está calcado demais no que as distribuidoras fazem. O que críticos de cinema sabem é que as mesmas são desiguais em distribuição de filmes. Mandam os alternativos pra Zona Sul porque aqui se concentra o público “cool e descolado” , bem mais que em outras partes da cidade.
            - Ah, você tá mentindo.
            - Como eu estou mentindo se sou crítico e estou por dentro das coisas, e você, um cara que apenas é espectador, saberia? Não tem porque eu mentir pra você.
            - Sei, mas você acha que realmente o público da Zona Oeste e Baixada gostaria de um filme tipo o que acabamos de ver esta noite? Eles entenderiam o “conceito” do filme?
            - Está os chamando de burros?
            - Eles sempre foram mais burros que a gente. Por exemplo, não fui eu quem votou naquele presidente imbecil, não sou eu quem assiste Reality Shows que não acrescentam em nada, não sou eu quem gosta de pagode e funk...
            - Se eles gostam disso, é problema deles. Aquele presidente imbecil foi eleito por gente da Zona Sul, também. Mas, isso é outra história. Olhe, obrigado pelo lanche, nós estamos de saída.
            - Qual é, nem terminamos de conversar? Por quê você defende esse povo sem cultura e com um gosto bizarro, cara? Só me responde isso.
            - Primeiro, que eu nasci na Baixada. Segundo, eles também poderiam caçoar deste seu estilo “emotivo” de se vestir, de suas desmunhecadas e da sua voz fina. E te desprezariam por seu preconceito. E aí? Essa menina é realmente sua namorada ou é sua irmã? – ao dizer isso, Cass deu uma risadinha. O cara ficou com aquela expressão de bunda-mole e fomos embora. Mas, ele resolveu tirar isso a limpo.
            - Sabia que você era como eles, arrogante duma figa.
            - Olha só quem fala. Sua bicha arrogante e hipócrita. Pagou pra ter essa menina do lado apenas pra fazer presença? Seja mais humilde, viado.

            Quando ele foi avançar pra cima de mim – e eu sabia – meti um soco, bem dado, no pau do nariz dele. Caiu no chão, derrubando a mesa. Obviamente, todos estavam vendo. Cass pôs as mãos na boca, aquele gesto típico das mulheres quando estão horrorizadas. Segurei as mãos da mesma e fomos embora. Tomamos o 409 (Jardim Botânico – Saenz Pena). Ela dizia para me acalmar, mas eu já estava tranqüilo. Não queria que fosse daquela forma, mas era inevitável que um de meus fãs seria dessa forma. Um playboy preconceituoso e “indie”. E que mora na Zona Sul. Puxei uma garrafinha de vodca com suco e limão e beberiquei até chegar à casa de Cass, na Tijuca.

            - Ah, dorme comigo hoje – ela disse.
            - Pergunta pra tua mãe – respondi. Ela perguntou e recebeu um “não”, como eu previa. Me deu um abraço de despedida. Queria passar a mão em sua bunda, mas além de ser cretino, não queria que pensasse que eu fosse tarado. Isso poderia minar futuras chances. E também não forço beijos. Ela entrou e peguei o 607 (Rio Comprido – Cascadura) para casa, no Engenho de Dentro.

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            • #7
              Em casa, tomei uma dose de pinga, pra esquentar os ânimos. Mas, de que servia se eu queria desabar na cama? Mamãe disse que amanhã eu receberia uma visita, mas eu nem dei bola. Decerto de que amanhã era folga, eu poderia passar na casa de Cass – realmente, eu estava me acostumando com ela – , mas eu estava grogue demais para pensar sobre.

              Acordei mais ou menos às meio-dia. Como mamãe sabe que hoje eu não iria trabalhar, nem me acordou. Sacanagem ficar dependendo dos outros pra despertar, eu sou mimado demais. Tive uma leve sensação de que alguém estava deitado comigo, não costumo rolar na cama enquanto durmo. Pantufas rosas...que porra é essa??? Antes de bancar o Sherlock, fui escovar os dentes e alguém tinha usado minha pasta. Só não usaram minha escova, pois aí seria sacanagem demais. Fios de cabelo longo no meu pente...caralho, isso já estava me emputecendo. Chamei por minha mãe, comecei a sentir um cheiro de assado vindo da cozinha, até que a vi preparando a comida.

              - Bom-dia – disse mamãe, com sorriso de orelha à orelha.
              - Bom-dia, mãe. Ué, finalmente os meus tios darão o ar de suas graças? Se for assim, ficarei feliz, também.
              - Não, filho. Melhor que isso.
              - Meus amigos? A Cassandra?
              - Dê uma olhada na piscina.

              Sem camisa e só de bermuda, fui até lá. Hum...cabelos longos negros, pele alva, seios médios para grandes, olhos oblíquos...

              ...minha irmã. MINHA IRMÃ, PUTA QUE PARIU!


              - PALOMA! – gritei, com os punhos cerrados. Ela me olhou, enquanto nadava. Saiu da piscina, fazendo seu biquíni negro brilhar à luz do sol. Chegou perto de mim, como se tivesse convivido comigo há pouquíssimo tempo.
              - Bom-dia, Lucas – disse ela, dando aquele sorrisinho irritante.
              - Eu acho que mereço um pedido de desculpas.
              - Pedido de desculpas? Por quê? Quando te tratei mal?
              - Se eu disser quantas vezes, não iremos sair daqui, hoje. O que você veio fazer aqui? Estávamos mais do que acostumados a viver sem você.
              - Não foi o que pareceu quando você me encontrou no Odeon. Mamãe me disse que você sempre falava de mim, queria porque queria me encontrar.
              - É...é verdade. Mas, não imaginava que viria pra cá. Um dia eu iria me esquecer de você, a minha vida está tocando perfeitamente, tenho um emprego...
              - Ora, finalmente está deixando de ser o vagabundo que sempre foi. Fico feliz por tomar um tino na sua vida, quando você sair definitivamente da sombra de nossa mãe, te darei um presente de agradecimento.
              - Então você veio pra cá pra isso, pra destilar seu veneno pra cima de mim? Vai me atormentar como você sempre fazia perfeitamente?
              - Você quem veio com 7 pedras, primeiro, honey, apenas me defendi. Me desculpe se não te tratei bem no Odeon.
              - Você disse pra todos que não era minha irmã, cacete!
              - Mas, é o que você sempre quis, não é? Até quando fazia “aquilo” comigo.

              Fiquei nervoso.

              - Você disse a alguém sobre isso?
              - Claro que não, minha carreira tá indo de vento em popa, se eu disser isso, estou ferrada.
              - Mas, você sabe que, se me tratar mal novamente, eu posso contar para todo mundo e você estará fodida!

              Paloma olhou diretamente para meus olhos e disse:

              - Que ameaça desnecessária. Não pense que só porque estamos vivendo vidas diferentes, ache que manda nessa casa. Se eu cair, você também cai. Sei que tem uma namoradinha. Se ela souber que você tirou a minha virgindade, ela, seus amigos e até seus colegas de trabalho irão te execrar.
              - Que hipócrita. E eu fiz isso porque você disse que eu era a única pessoa digna de sua confiança...
              - E ainda é. Mas, não pense que querendo virar a mesa pra cima de mim, irá conseguir alguma coisa. Fica na sua, honey. Paz.

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              • #8
                E subiu para almoçar. Permaneci com as pernas na água da piscina, refletindo. Cheguei à conclusão de algo que todos sabiam: eu sempre fiquei à sombra de minha irmã.

                Almoçamos, eu estava visivelmente nervoso, o que me incomodava muito. Mamãe perguntou se estava havendo alguma coisa comigo, terminei meu suco e fui para o quarto. Paloma só me olhava. Dormi praticamente a tarde inteira. Ao acordar, vi a mesma trocando de roupa em frente ao espelho de meu quarto. Apesar de ter me deitado com ela uma só vez, eu parecia um tarado ao ver seu corpo após 5 anos, plenamente desenvolvido: bunda grande e seios fartos. Paloma percebeu que estava sendo observada, mas nem ligou:

                - Tô muito gostosa, né? Não fiz cirurgia alguma.
                - Se eu pudesse, bateria uma pra você nesse momento – eu disse, excitado.
                - Mas, você pode. Já eu, acho que se masturbar é coisa de fracassado, de quem não arruma namorada séria, coisa de nerd que fica o dia todo vendo séries e gastando 90 reais em um gibi vagabundo.
                - Se eu pedisse pra gente transar de novo, seria alguma coisa. Mas, claro que você recusaria.
                - Creio que não esteja em nossos planos ter um filho defeituoso. Você quer? Acho que não.
                - Mas, você e eu queremos ao menos o momento. Você sabe disso. – daí, eu tirei a cueca, e ela viu meu pênis 100% ereto, até que disse: “deixou de ser um molequinbo, né, cara?”. Fui até a porta do meu quarto e tranquei. Deitei e com o “zezinho” ainda ereto, disse: “Pode sentar, sei que você quer”.
                - Primeiro, que você esqueceu da camisinha. Segundo que você não manda no que eu quero ou deixo de querer.
                Quando Paloma foi se virar, meti minha mão no meio de suas pernas e minha outra em seu ventre. Desabamos na cama, achei que ela iria gritar, mas ela ficou calada e nem se debateu, estranhamente. Abri suas pernas e fiz um sexo oral que a fez arranhar a parede. Ela gemeu de uma forma tremenda e quando gozou, se contorceu a ponto de quase quebrar meu pescoço com uma de suas coxas. Relaxou de tal ponto que desmaiou ali mesmo, nua e suada. Seria uma boa oportunidade para eu penetrá-la, se eu também não estivesse cansado. E dormimos.

                Ao acordar, estava envolto em um cobertor. Achei que o que ocorreu fosse um sonho, até que, ao levantar e lavar o rosto, minha mãe disse que Paloma deu uma saída. Não disse onde, mas me forneceu o número do celular da mesma. Liguei.

                - É o Lucas. Onde você está?
                - Oi, mano. Estou dançando aqui, no viaduto de Madureira, sabe onde fica?
                - Vai chegar tarde, né?
                - E se eu chegasse, seria de sua conta?
                - Não fale assim comigo, só estou preocupado com você.
                - Eu sei. Hoje, eu não tenho hora pra chegar. Relaxa, não vai ocorrer nada de mal comigo. E não será hoje que você vai bancar o “irmão protetor”, né?
                - Eu mudei, simplesmente.
                - Não mudou, não. Ainda quer o meu corpo mais do que tudo nesse mundo.
                - Isso não vem ao caso.
                - Claro que vem. Tchauzinho.

                Me arrumei e fui até Madureira, tomando o 638 (Saens Pena – Marechal Hermes). Cheguei lá 20 minutos depois, o local estava abarrotado de gente. De um lado tocava funk, do outro, pagode. Sabia que Paloma gostava mais de funk – infelizmente – . Então, eu me embrenhei nesse meio. Até que 5 minutos depois, a achei, dançando com alguns homens. Disse seu nome, ela me viu, mas continuou dançando. Alguns minutos depois, ela veio até mim.

                - Você não gosta de funk? Veio aqui só pra me monitorar?
                - Exatamente. Vamos embora?
                - Você tá agindo como a mesma pessoa de sempre, como disse que mudou?
                - Tá abusando da minha paciência?
                - E se eu estivesse, iria fazer o quê comigo? Me bateria?
                - Te comeria.
                - Aí, eu só iria gostar. Não me castigaria. Você tem uma língua muito habilidosa, mas porquê não vai chupar a vagina da sua namorada? Eu não vim te visitar pra aturar você querendo me comer o tempo todo. Somos irmãos, então, se descobrirem o que fizemos irão destruir nossas vidas. Só pelo fato de sermos irmãos, nem deveríamos nos beijar na boca. Transe com sua garota, não comigo. Eu vou atrás de quem eu quero e você não pode me impedir. Conviva com isto.

                E foi embora.

                O meu problema é que, embora temos uma convivência conturbada desde crianças, eu sempre quis estar perto dela, como se minha raiva pelas suas pirraças e arrogâncias fosse fachada. Eu queria protegê-la para sempre e senti ciúmes pelo fato dela ter tornado-se uma adulta e poder levar sua vida independente. Desde nossa adolescência que Paloma sabia do meu amor por ela. Lembro-me de que ela era a única pessoa a me chamar para brincar, e pelo fato de sermos literalmente unidos, sempre tivemos juntos. Sempre saímos, nos divertíamos e dormíamos juntos, descobrimos o corpo um do outro, até que, por pura confiança que ela sentia por mim, transamos. Mesmo passados 5 anos de ausência, eu realmente não me esqueci dela. Cada vez a queria perto de mim. Queria casar escondido com Paloma, ter um filho. Ela significava minha existência. Mas, claro, somos irmãos. Só isso acabaria com meus planos. Nós éramos relativamente famosos quando éramos ligados, mas após a separação, ela resolveu seguir seu caminho e faz sucesso sozinha. É a vida dela, porra. E não dá, NÃO DÁ para eu forçar uma coisa se ela não quer, ainda mais que feriria as regras da sociedade. Sociedade que julga e pune de acordo com suas leis. Eu não era criança alguma. Eu deveria dar um fim a esses pensamentos, um fim nesse desejo, para meu próprio bem. Para o bem de Paloma, de minha mãe, de Cassandra e de meus colegas. Então é isso. Vou viver minha vida. Não pensarei em minha irmã como uma mulher, mas como minha irmã.

                Chega.

                C H E G A.

                Manhã cedo. Era sábado. A cama não estava tão desarrumada, as pantufas rosas não estavam lá, então ela não dormiu comigo novamente. Melhor. Pensei em ligar para Cass, agendando um encontro pra hoje ou domingo. Eu já desejava essa querida menina há um tempão, e seria perfeito se Paloma não aparecesse na minha vida novamente. Eu deveria sofrer com a saudade, porém, esta iria terminar, já que o AMOR de Cass se encarregaria de apagar isto, com o tempo. E como eu disse, estava me acostumando com aquela lourinha avoada.

                - Bom-dia, Lucas. Estou indo pra Floresta da Tijuca, vamos? – disse Paloma.
                - Agora? Tô conversando com minha namorada, deixa pra outro dia.
                - Eu irei embora amanhã de tarde. E acho que ela poderia sair contigo amanhã. Não vai aproveitar o dia junto da sua mana?
                - Você própria disse para eu te deixar viver sua vida.
                - Sim, mas não quer dizer que deixarei de falar com você por isso.
                - E precisamos de um encontro pra isso?
                - Tá, você que sabe. Fica a seu critério.
                - Isso mesmo.

                Alguns segundos depois...deixei de ligar. Furioso, disse:

                - Vamos pra Floresta da Tijuca, então.

                Fomos para a Tijuca pegar o 233 (Rodoviária – Barra da Tijuca), um dos poucos ônibus que passa lá em cima. Estava cheio. Chegando na praça do Alto da Boa Vista, fomos ao portão da Floresta da Tijuca, vestidos com bermudas, camisas e calçando tênis bem confortáveis. Eu estava de boné, ela estava com um rabo de cavalo enorme e óculos escuros. Andamos pra caramba, levamos mais de 1 hora para chegar ao Bom Retiro, um largo onde daria trilhas para os picos Bico do Papagaio e Pico da Tijuca (tinha mais um aí que me esqueci). O guarda queria nossos nomes e telefones, caso nos perdêssemos, ele teria a quem contatar. Andamos a trilha do Pico da Tijuca, porra, o quão subimos. 45 minutos depois, chegamos lá em cima, após subir uma escada feita no pico e subir mais alguns metros. Estava um sol aconchegante, e a recompensa de tanto subir foi a vista deslumbrante que temos do Rio de Janeiro. Meus olhos chegaram até a Serra dos Órgãos, na Região Serrana.

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                • #9
                  - Estava morrendo de saudades daqui – disse Paloma, que sentou e tomou um gole de água. – E então, você vai ficar nessa vidinha?
                  - Que “vidinha”? – eu perguntei, sentando-se também, de frente ao penhasco.
                  - Essa vida sem-graça que você tem. Por quê preferiu ficar assim?
                  - Eu nasci pra ter essa vida. E não acho tão sem graça assim. Possivelmente, me aborreceria com essa vida corrida e empolgante que você anda levando. Sou suburbano como você e morrerei assim.
                  - Que coisa. Nós, quando vivíamos ligados, éramos celebridades, mas quando nos separamos, achei que você queria prosseguir a cartilha, como eu. Eu nunca conseguiria me sentir realizada vivendo como você.
                  - Só lamento por você.
                  - Sabe que mamãe quer se mudar, né? Ela vai deixar a casa pra você.
                  - Melhor pra mim. Assim, levo logo Cass pra morar comigo, quando nosso relacionamento se firmar.
                  - Você se acha realmente feliz com essa menina?
                  - Eu nunca fui um sujeito realmente feliz nessa vida adulta. Os momentos felizes, eu tive com você, Paloma.
                  - Quer dizer que ela não se compara comigo, nessa questão?
                  - Não, até porque somos irmãos, vivemos juntos quase a vida inteira. A Cass tá chegando agora, ainda tem muita água pra rolar. Vai chegar o dia em que eu não vou querer mais saber de você, esse dia será a minha alegria.
                  - Que bom.
                  - Como você irá embora amanhã e ficarei sem te ver por um bom tempo, queria que realizasse meu desejo de anos. Esqueça nesse momento de que somos irmãos, esqueça qualquer parentesco.
                  - Você quer transar comigo...aqui em cima do Pico da Tijuca?
                  - Sim. Aproveitando que por enquanto, não subiu ninguém. Esse é meu último desejo, depois disso, nunca mais te pedirei algo parecido nessa vida. E nem na próxima.
                  - Hum...só pra realizar seu fetiche, é isso?
                  - Não é fetiche. Eu sempre fui apaixonado por você. Hoje será o término dessa fase. Nunca mais vou te encher o saco, nem te ameaçar. Nunca mais.

                  Paloma tirou seu tênis e sua roupa, eu fiz o mesmo. Aquele vento gostoso, aquele lugar só tornaria meu desejo ainda mais paradisíaco. Me beijou ardentemente, e eu fiquei querendo que passássemos logo para a parte do sexo. Ela me pediu calma, já que era um momento que nunca mais iria se repetir. Ok. Alguns minutos depois, peguei a camisinha. Transamos bem gostoso.
                  Após, descansei. Ao levantar, Paloma estava de biquíni e me deu um último beijo.

                  - Eu quero que você viva sua vida, independente de como ela seja. Eu amo você, mais do que tudo, Lucas. Obrigada.

                  E...se jogou do penhasco.

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                  • #10
                    [Cassie mode on] Oh, uau! [Cassie mode off]

                    Ahm, ele desperdiçou a camisinha.

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                    • #11
                      Eu fiquei desesperado com a vã esperança de ver minha irmã pendurada em alguma pedra, salvando-se da morte inevitável. Mas, obviamente que o destino seria o mais realista possível. Aqui não tem essa de fatos ocorridos como desenho animado. Ela pulou MESMO, de encontro à morte. Só após o ocorrido que começaram a pipocar outras pessoas no Pico da Tijuca. Aflito e chorando, tentei descer até lá embaixo, mas a estrutura do precipício era íngreme, então, se eu errasse uma vez só, seria mais uma vítima a se estabacar lá embaixo. Não consegui ver seu corpo lá de cima, mas via muito bem os urubus que descansavam nas encostas. Eu tive medo. E subi.

                      Algumas horas depois, realizou-se uma busca à procura do corpo dela. Vários guardas florestais, comigo junto e após 1 hora de embrenhamento na mata atlântica que avistamos. Membros inferioes e superiores foram estraçalhados. Seu crânio, esmigalhado. Antes de aparecermos em frente do corpo, os rapinantes já queriam fazer a festa. Duas horas depois, entrei em contato com mamãe. A desgraçada desesperou-se a ponto de explanar para todo mundo o que havia acontecido. E então, por duas semanas que pareciam nunca acabar, a Mídia caiu em cima da gente. Revistas, jornais, programas de tevê. Só aí que a Mídia em si me reconheceu, já que na época em que eu e mana éramos literalmente ligados, fazíamos um relativo sucesso. Mas, é foda, eu não queria falar dela para gente que eu nunca vi na vida, e para pessoas que se alimentam com a desgraça alheia. Eu estava desolado, tudo o que eu queria era sair fora dos estúdios, tomar um banho bem gelado e cair na cama, mas eu tinha uma porrada de perguntas para responder. Queria mandar quem me induziu a isso tudo a tomar no olho do cu, DO CU, mas eu me empenhava em ser o mais cordial possível. Eram 7 horas da noite, e eu ainda estava agendado a ter uma entrevista em um programa de auditório em São Paulo, tudo para falar dela. Esses caras não dão um desconto. Minha mãe estava aborrecida comigo, como se pensasse que eu tinha sido o culpado da morte dela. Terminada a última badalação, cheguei em casa, morto.

                      Tomei um banho, e fiquei andando pelado pela casa. Assaltei a geladeira fazendo um sanduíche, peguei 2 litros de Fanta e fui ver um DVD. Não estava nem aí para as entrevistas que tinha feito para N canais e que iriam passar naquela hora. Tudo o que eu queria naquela hora era ficar sozinho, totalmente. Tirei o chinelo e fiquei pelado assistindo filmes. Campainha. Não queria levantar. Nem me vestir. Então, na maior cara de pau e desleixo do mundo, fui até a porta e vi pelo "olho mágico". Cass.

                      - O que você quer, Cass? - perguntei.
                      - "O que você quer, Cass"? Algum bicho te mordeu, hoje? - disse ela, sem entender.
                      - Você sabe que estas semanas eu estou sendo extraído até o osso por causa da morte da Paloma. Eu só quero ficar um tempinho sozinho.
                      - Acho...que você precisa de companhia. Você sabe que eu sou diferente desse pessoal, não me importo com o que estejam falando de sua mana. Só queria te consolar.
                      - Tá bom. Mas, eu estou tão pregado que tô andando pelado pela casa. Aliás, sempre faço isso quando ninguém tá aqui.
                      - Eu...eu não... - Cassie tentou dizer, mas estava tão encabulada que demorou alguns segundos - eu não ligo.
                      - Não força a barra.
                      - Eu realmente não ligo!
                      - Tá bom, vou abrir a porta.

                      Abri e Cass estava bem bonita. Parece que queria me levar para algum local, mas sabendo que eu estava com preguiça de fazer qualquer coisa, deve ter espantado esse pensamento da cabeça. Ficava concentrada em não olhar pro meu piru, e automaticamente ficava vermelha por isso. "Se você quiser, eu visto a roupa", eu disse. Ela me respondeu dizendo que estava tudo bem, que até poderia "entrar na dança", se estivesse um pouco mais animada. Hhaha. Voltei à minha poltrona vermelha e Cass sentou-se perto de mim, até que notei seu desconforto.

                      - Quer sentar junto comigo? - eu disse.
                      - Adoraria, mas...bem, eu sinto muito por sua irmã ter morrido.
                      - Essa parada de "sinto muito" é coisa pra americano, estamos no Brasil, portanto, não funciona. Mas, já que você está aqui, vou te contar uma parada que não revelei a ninguém até hoje. E vou te revelar porque você é de confiança.
                      - Então...pode me dizer, sou toda ouvidos.
                      - Eu transava com Paloma.

                      Após esta revelação, Cassandra esboçou uma expressão relaxada, até que disse:

                      - Uau! Tudo bem, eu entendo.
                      - Entende? Entende o quê?
                      - Eu também já chupei o meu irmão, antes dele morrer. Era o último desejo dele em seu leito de morte.

                      Eu fiquei aflito, aborrecido, ciumento, até que avancei em cima de Cass e caímos no chão. Eu em cima dela.

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                      • #12
                        - Está falando sério?
                        - Claro que é brincadeirinha.
                        - É brincadeira mesmo, não é?
                        - Sim. Assim como é brincadeira o que você me disse. Apesar de ser de mal gosto, eu entendo. Você odiava sua irmã, mas tinha uma obsessão pela mesma. Sei que não chegaria ao ponto de comer a própria irmã, né? Não tô certa?
                        - ...sim, está certa.
                        - Então. Eu vi que você está meio cabisbaixo depois disso e dessas entrevistas. Sua mãe virá hoje?
                        - Não sei...estou com sono, vou tirar um ronco. Pode ver o filme se quiser.
                        - Não, obrigada.

                        Fui para o quarto, onde me cobri com o lençol. Percebi que Cass permaneceu me observando enquanto fiquei deitado. O que ela queria, cacete, que eu lhe desse um convite formal para deitar comigo?

                        - Agora que você está novamente sendo o centro das atenções da Mídia, vai deixar essa oportunidade passar em branco?
                        - Eu não sei...tô preguiçoso demais, não estou com mais saco pra responder a curiosos mórbidos. É típico do pessoal que curte um Big Brother.
                        - Isso se vê, mas desde quando ser um anônimo é mais construtivo?
                        - E ser um famoso é? Tá certo que tive bons momentos sendo famoso com minha irmã quando éramos ligados, mas essa época passou. Eu só quero paz e descanso. Aliás, você está falando demais, deite-se comigo.
                        - Era isso que eu queria ouvir...uau. - Cassie tirou sua roupa e veio se deitar comigo, de calcinha e sutiã. Fiz umas cosquinhas em suas costelas e foi gostoso ouvir aqueles risinhos, parecia uma fadinha rindo. A abracei.
                        - Você tem um cheiro gostoso, Cass.
                        - Sei que você não gosta de perfume, mas este é especial, não é qualquer perfume vagabundo que as meninas hoje em dia usam.
                        - Muito obrigado.
                        - E então, o que vai fazer de sua vida? Pode-se dizer que em parte, você queria que ocorresse algo de mal com ela, mas não dessa forma, não é?
                        - É, tem razão. Nós nos demos muito mal quando éramos literalmente ligados. Ela me odiava, mas depois me tratava bem, e isso me surpreendia. Nunca agi dessa forma, a desgraçada sempre fazia minha caveira nas entrevistas, e depois me ajudava a conquistar uma porrada de coisas. Claro, perdi várias pretendentes por causa dela.
                        - Acho que ela não gostaria de mim.
                        - Se gostasse, seria mais uma surpresa. Ela nunca foi uma menina de bom gosto, mesmo. Huhehe.

                        Cassandra dormiu comigo naquela noite. Seu corpo quentinho e cheiroso ficou comprimido ao meu a maior parte do tempo, e tivemos sorte porque quando durmo, não me movo tanto. E nem ronco. Ela, idem.

                        No dia seguinte, despertei. Estava chovendo, já havia sentido aquele frescor antes mesmo de abrir os olhos. Cass roncava tão baixinho que me lembrava um gato. Beijei suas costas e cheirei seu cabelo. Ela não se mexeu. Fui até o banheiro e tirei água do joelho. Depois fui me vestir e ir lá fora comprar pão. Avistei um sujeito dormindo próximo à porta.

                        - Ei, ei, cara. Acorda. Está fazendo o quê aqui? - perguntei, vendo que ele estava com uma máquina fotográfica.
                        - Ah...oh! Me desculpe, cara - disse ele, desconcertado.
                        - Quer me fotografar a essa hora da manhã? Sei que ainda é sexta-feira, mas tudo o que puderam extrair de mim já...
                        - Me desculpe de novo, é que eu estou apenas fazendo meu trabalho.
                        - Quanto você ganha por mês? Pode me dizer?
                        - Er...450 reais.
                        - É pouco. Procure um trabalho melhor e menos arriscado como esse. Já pensou se eu fosse um sujeito truculento? Te daria um chute no saco e aí que você teria motivos pra dormir de verdade. Te manda.
                        - Que educado, você, hein?

                        Fui à padaria, em que o seu Gomes já tirou um sarro de mim dizendo que eu não conseguiria obter minha vida tranquila de volta. Em parte, ele está certo, já que direcionaram as atenções de minha irmã para mim. Minha mãe gozava de uma vida calma em Lumiar e não se deu o trabalho de me acompanhar neste martírio. Que desnaturada. Mas, creio que isso foi uma vingançinha pelos meus anos de arrogância e egocentrismo, que ela aguentou bastante. Valeu. Voltei e o sujeito ainda estava lá de prontidão. Ameacei dar uma "pãozada" nele e o frutinha correu, huhehe. Nem acordei Cass, mas preparei seu sanduíche e um copo de suco. Ela levantou por si própria, coçando a cabeça, suas longas madeixas louras estavam desgrenhadas. Eu já estava terminando o segundo sanduba até que ela me deu um embaçado "bom-dia" e sentou na cadeira, de calcinha e sutiã quase caindo. E foi devorando seu café da manhã.

                        - Quer que eu permaneça um tempo com você? - ela disse.
                        - Você realmente quer? Vai ter de aturar estes repórteres, aí - eu disse, enquanto tomava um suco.
                        - Eu não me importo. Embora não pareça, sou uma mulher que já aturou de tudo um pouco na vida.
                        - Ora, ora, nunca te vi falando assim, de um modo firme. Só não vá me bater depois, huhehe.
                        - Hhahah. Vai trabalhar, hoje?
                        - Sim, preciso, né? E você, vai pra faculdade?
                        - Vou, minha mãe está morta de vontade de me levar embora do Rio, mas eu estou gostando tanto daqui...estes 5 anos estão me deixando muito feliz, principalmente por ter conhecido você e outros amigos. Até minha maninha tá gostando, está se dando muito bem na escolinha dela e tudo mais...não tem porquê irmos embora.
                        - Não posso opinar muito sobre isso. Como você é maior de idade, pode decidir por si só, não?
                        - Não, bobo, e a minha mãe? Ela precisa de mim!
                        - Claro, claro. Mas, vai cuidar dela até quando? E ela não é idosa, é até uma jovem bem vistosa. Só acho que é desnecessário você cair fora da cidade, e nem preciso dizer que você está comigo.
                        - É...tá certo. Vou enfrentar mamãe.

                        Após o café, tomamos um banho e fomos à casa de sua mãe, onde eu logo fui bem recebido pela irmã de Cass, educada como sempre. Me ofereceu uma xícara de café e eu aceitei, mesmo estando cheio. "Cadê mamãe?", disse Cass. "Ela saiu com nosso tio", respondeu sua irmã.

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                        • #13
                          Estou com preguiça de ler, tem algo haver com a Cassie mesmo?
                          Faço JOGUINHOS DE TEXTO AGORA, GRANDE EVOLUÇÃO DE PERSONAGEM:
                          https://forum.choiceofgames.com/t/th...ed-15-05/26275

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                          • #14
                            Postado originalmente por ZapeR
                            Estou com preguiça de ler, tem algo haver com a Cassie mesmo?
                            A Cass tem uma participação ativa na história. Mas, não pense que é a Cass que você conhece.

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                            • #15
                              Elas me convidaram até a passar um tempo jogando videogame com elas, mas eu tinha que trabalhar. Mesmo sabendo que provavelmente iria estar uma balbúrdia lá no trabalho. Daí, fiquei tentado entre me divertir com as irmãs ou enfrentar mais um dia de trampo. Nego me achava um dos funcionários-padrões, e faltar era uma péssima idéia para todos, principalmente para mim.

                              - Me desculpem, gente. Eu vou ter que trabalhar, hoje - eu disse.
                              - Aaah, mas o que terá lá na sua firma além de um monte de fotógrafos querendo te encher o saco! - disse a irmãzinha - Fica aqui com a gente, oras.
                              - Eu vou fazer assim: hoje seria uma das únicas vezes que eu poderia faltar. Vou ao trabalho e se a chapa estiver quente, eu volto, é uma promessa.
                              - Tá bom, vamos confiar em você - disse Cass. Se você ficar por lá, pelo menos vai ter o que comer. Estou fazendo um prato bem gostoso pra ti.
                              - Puxa, obrigado.

                              Depois disso, eu tomei o ônibus e fui ao trabalho. Com certeza, tinha aquela balbúrdia sim na entrada do prédio do jornal, todos me procurando. Tive que entrar pelos fundos. Subi as escadas calmamente até que, chegando à redação, encontrei várias pessoas que nunca tinha visto lá antes. Claro que eram mais jornalistas, procurando minha fuça. Não quis falar com ninguém, até que perguntei pelo chefe, onde ele estava. "Na sala habitual de sempre, conversando com a doutora Érica". Ok. Empurrei algumas pessoas e bati na porta, educadamente. "Tô ocupado", ouvi. Peguei na maçaneta e entrei. Ele realmente estava conversando com uma loura de terno branco, olhos azuis e de busto avantajado.

                              - Me desculpe, doutora. Esse é...
                              - Chefe, eu não vou trabalhar pra canal nenhum.
                              - Mas...
                              - Por favor.

                              Daí, ele se virou para a mulher e disse: "Bem, ele não quer, então não posso fazer nada a partir daí". Ela olhou para o chão com uma postura séria, se levantou e disse para mim: "Não sabe o que está perdendo" e se retirou da sala.

                              - Está falando sério, né? Vai deixar de trabalhar no canal? Ela veio aqui de bom grado te ajudar...
                              - Porque sou irmão da Paloma, chefe. Vamos trabalhar, sim? - e fiquei o dia inteiro no expediente trabalhando, tomando cafezinho, mandaram mais dois filmes para avaliarmos e falei muito mal dos mesmos. Uma comédia romântica hollywoodiana estrelada por aquele casal famoso (Tom e Kate) e um drama iraniano, que achei maneiro. 6 da tarde, boa parte do pessoal tinha saído fora e eu estava andando descalço pela firma. Estava vendo um filme baixado na internet. Quando a secretária tinha saído para comprar pão para fazermos um sanduba, fiquei fazendo a maior palhaçada andando de calça arriada pela firma. Babaquice, eu sei, mas o que você imagina de uma pessoa estando sozinha em um ambiente público (como um metrô ou trem vazio, por exemplo) e pode fazer o que não faria sendo visto pelas pessoas nem por decreto? Fiquei fazendo um monte de gracinhas até ela chegar. Me viu ofegante e provavelmente achou estranho. Dei uma ligada para minha mãe, até para saber o que ela queria, mas estava ocupado. 20 minutos depois, quando fui arrumar as coisas para sair, liguei novamente. Ocupado. Então, eu fechei a firma junto com a secretária e até iria na casa da Cass se eu não pensasse em conversar com meu amigo Rocco. "Pode vir aqui em casa, cara!".

                              Fui para a casa dele, ao subir as escadas, tavam tocando algo do David Bowie, e conversinhas ditas bem baixinho. Chegando lá em cima, sabia que ele estava cheirando junto com seus amigos. No caso, duas amigas de cabelos longos, em trajes sumários.

                              - Cê me chamou aqui pra isso? - perguntei, sério.
                              - Não, mas você que quem quis vir - ele disse, enquanto cheirava mais uma carreira. - Tem comida lá na geladeira, e muito suco de laranja, já que você adora.
                              - Não vim aqui pra comer, cara - após dizer isso dei uma olhada em uma das meninas. Era a mesma garota que eu tinha transado na última vez que apareci por lá. - E aí, menina, se lembra de mim?
                              - Ah, lembro - disse ela, sem olhar direito pro meu rosto. - tudo bem com você?
                              - Me diga você.
                              - Tá tudo bem. Vai chapar com a gente?
                              - Não, eu só bebo. Rocco, você que chamou essas meninas pra cheirar com você ou elas vieram por conta própria?
                              - Que diferença faz, se elas gostam do pó? - após dizer isso, o sangue de uma das meninas desceu pelo nariz.
                              - Aí, já chega, cara. Vamos parar com isso.
                              - Por quê parar, tá o maior barato isso aqui, porra.
                              - Não, acabou, mano. Acabou - peguei a cocaína que restava, levei ao banheiro e joguei na pia. Rocco ficou desesperado querendo pegar o tabuleiro com a carreira, mas eu disse: "se tentar tirar de mim, vai levar porrada". As meninas me xingaram, até a que eu transei. - Teu nariz tá sangrando, preocupe-se nisso ao invés de ficar me xingando.
                              - Porra, eu te chamei na moral pra gente se divertir e você faz isso comigo, Lucas! Tá maluco?
                              - Olha, se fosse outra pessoa, te deixaria cheirar o que quisesse até derreter o nariz, mas como seu amigo, te digo que você precisa procurar uma clínica. Sua mãe tá sabendo disso? Fala a verdade.
                              - Claro que não...
                              - Então, quando ela vier, você vai contar ou eu conto. E é pro seu bem. Valeu?
                              - Tsc... - ao colocar a mão na cabeça e olhando pro chão, uma das meninas tentou me agredir, me xingando. Demorei um tempo para imobilizá-la. Não era a que eu transei, essa deu no pé. Sorte que eu sabia o número do celular dela.

                              Depois daquela palhaçada toda, sua mãe chegou e ele contou. Obviamente, ficou muito envergonhado, a outra menina que eu tinha deitado no chão foi embora. Rocco me abraçou e disse que iria começar a se tratar numa clínica de recuperação. Era meia-noite quando eu havia começado a ficar com sono e peguei um ônibus pra casa. Não liguei para Cass. Chegando lá, acendi as luzes e tinha um gato em cima do sofá. Um gato branco e preto. O mesmo parecia estar com fome e miava muito. Como eu não tinha leite na geladeira, coloquei um pouco de refrigerante no prato fundo. E ele bebeu. Queria dar uma navegada na internet e conversei com alguns amigos que eu nunca verei na vida. Na mesma hora, os deletei de meu MSN (serviço de mensagens em tempo real), até porque não eram amigos de verdade. Até que fui ver meus emails. Tinha um que ainda faltava ler. Daí, eu estava lá, vendo normalmente quando passei a realmente prestar atenção pelo o que li:

                              " Olá, Lucas, meu querido irmão. Tudo bem? Aqui é a Paloma.
                              Embora tenha sido uma experiência louca demais, venho dizer a você que optei por me desvencilhar da Mídia e do mundo em geral. Você me viu caindo do penhasco no Pico da Tijuca depois daquela transa maravilhosa e pensaram que morri. Mas, eu não morri. Eu estou viva. Sã e salva em um local onde humanos normais como você não podem ir sem darem algo em troca. Me disseram que você poderia ser minha conexão com as pessoas, mas quero que isso fique apenas entre nós. Não fale com ninguém. Se quer me ver, procure ir à São Paulo seguindo o maldito coelho branco do lugar maravilhoso onde sempre quis ir. E me desculpe por ter te tratado mal durante todo este tempo. Eu sempre te amei mais do que tudo no mundo.

                              Com muito amor,
                              Paloma."


                              Eu...eu fiquei estupefato. Pensei que se trataria de uma brincadeira de moleques que queriam me zoar após a morte dela, mas junto à escrita veio um arquivo de áudio. E não é que era a voz da desgraçada? Ouvi umas 8 vezes, REALMENTE era Paloma.

                              E agora?

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