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    É uma tarde fria, e tudo o que eu vejo ao meu redor é poeira. Uma massa cinza que parece viva, mas que me remete à mais desoladora sensação de morte. A promessa era a de um dia ensolarado.

    É estranho, eles costumam nos alertar com valiosa antecedência sobre estes episódios de fúria titânica. Já posso ouvir as críticas que os sacerdotes vão ouvir. Haverá muito socar de mesas, vociferações e defesas de humildade protocolar, nos costumeiros simulacros de grandeza. E no final não haverá nada.

    Eu fui contemporâneo de pelo menos quinze acontecimentos desta magnitude. Mas nunca assim, de surpresa. Eu sempre tive a oportunidade de me abrigar desta fúria colossal. Algum representante dos sacerdotes sempre aparecia para anunciar os ataques divinos. Não ousamos pedir explicações, mas, por uma questão de auto-preservação, sempre nos consideramos no direito de recebermos a bênção do aviso.

    É um vento frio que espalha estas nuvens cinzentas. Eu olho para cima e imagino a amplitude esmagadora do céu. Eu nunca vi um deus. Com certeza já o ouvi e senti sua força, mas nunca vi. Enquanto a poeira se dissipa e minha visão fica mais clara, posso constatar a imensidão da destruição. A compactação dos escombros denuncia um estilo de devastação que apenas faz jus a uma divindade feminina. Eu já vi umas seis vezes. O descontrole, o caos, a impulsividade. Sinto o tremor, a síndrome do verme que está a mercê do deus que lhe poupa a vida apenas para que o medo possa durar mais um pouco.

    Todos aprendem que, quando o medo vai embora, a divindade não precisa mais de você. Ninguém está preparado para ser descartado, e é por isto que temos tanto medo de perder o medo do mundo. Li sobre isto ontem mesmo, num livro escrito por Zardo Rejes, da filosofia cilistênica. Eu não acho que ele seja o picareta que tanto dizem. É apenas um cínico, um palhaço que ninguém entende. E um viciado.

    Não diria nada disto se não o conhecesse tão bem. Tornamo-nos amigos ou algo parecido por intermédio de Luli, sua irmã mais nova. Ela foi a mulher que fez com que eu sentisse vontade de cometer suicídio diversas vezes. Mas nada disto importa agora. Minha atenção sempre se volta a estas coisas pequenas quando estou diante de eventos trancendentais e assustadores como este. Deve ser o reflexo de minha covardia diante da tarefa de compreender estes fatos.

    Mas por mais que eu tente fazer a reconstrução mental do que aconteceu hoje, não consigo casar as peças. Estava viajando de carro, tangenciando esta cidade quando tudo começou. É tão difícil de descrever quanto os acidentes de trânsito em que você participa. Foi um sacudir de ondas sonoras e a privação de qualquer referencial, fiquei completamente desorientado. Um alvoroço se apoderou de mim e eu me lembro de me mover de modo frenético, sem pensar muito no que estava fazendo. Empurrei a porta e quando dei por mim, estava engatinhando para fora do carro, cujas rodas apontavam para o céu. O atrito com o asfalto passou despercebido, já que toda minha sensibilidade estava tomada pela forte ventania que me golpeava o rosto e me fechava os olhos.


    Lá estava eu, metade do corpo para fora do carro, as pernas se contorcendo de pavor ao ponto de causar câimbra. O forte vento quase chegava a deformar tudo o que tocava. Além do turbulento assopro, pude ouvir sons massivos, uniformes, sons de destruição. Os sons dos socos de um deus. Protegi os olhos com a mão, para que pudesse abri-los e saber o que temer. Vi apenas poeira e clarões. Este era o cenário, a poeira saía da cidade e me envolvia, tornando-me parte da arena de devastação. Não pude saber de onde vinham os ataques, não consegui enxergar coisa alguma, apenas os clarões coloridos, filtrados pela espessa nuvem cinzenta.

    Levantei-me e caminhei sem saber que rumava para a cidade. Os sons ficavam mais altos e agora conseguia discernir alguns gritos. Gritos de vítimas e gritos inumanos, coléricos que soavam feitos forças da natureza, como cachoeiras descomunais.

    E esta nuvem que mais parece um túmulo para esta cidade infeliz? Foi a dúvida que me ocorreu em meio ao terror. Seria o pó dos destroços ou o vapor das ventas de um deus cheio de ira? Continuei me movendo, agora deixando que minha agitação se traduzisse em passos mais acelerados. Corri cada vez menos desorientado até o momento em que pude associar os deslocamentos de ar aos estrondos. Parei e olhei na direção de onde partiam aquelas ondas de aniquilação. A poeira foi se dissipando em meio a uma calmaria bastante suspeita e o caos se travestiu em harmonia. Até mesmo o sol veio me consolar, mas de imediato, repeli este falso mundo de tranquilidade na certeza de que nada mais seria como antes. De algum modo eu sabia que havia sido naquele momento, em que estive rodeado por opressão e morte, que finalmente tive contato com a face real deste mundo.


    Continua...
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  • #2
    Minha ansiedade aos poucos me abandona. Minha respiração volta ao ritmo desconfiado que me é típico, dizendo ao meu corpo que, seja lá qual fora a ameaça, já havia cessado. Olho para minhas mãos e vejo sangue, o mesmo sangue que mancha minhas roupas e que me lança à percepção de que meu corpo está todo ferido, como se saído de um tornado cheio de lâminas. Projeta-se então em minha mente a inusitada constatação de que a dor apenas nos ataca quando estamos prestando atenção ao nosso corpo.

    A dor física que me aflige parece ser compartilhada pelas pessoas cuja presença agora se revela aos meus olhos e ouvidos. Vejo gente correndo e chorando. Outros caminham casualmente como se estivessem em choque, mas o que me parece é que eles realmente não estão ligando. Muitos do que seriam inimigos em potencial nesta vida agora se olham como irmãos, como se estivessem jogando no mesmo time contra a morte. Ninguém se atreve a olhar para cima.

    Continuo caminhando. Escalando seria o termo mais apropriado, pois agora há só concreto amontoado onde havia prédios. É um cenário todo cinza, um pouco mais horrendo do que quando a cidade estava intacta. Garanto contudo, que esta minha última observação não deve ser tomada como a expressão de uma vergonhosa adesão aos princípios da facção ecônoma. Que fique claro que meu mais íntimo desejo é o de que Curtseinme e seus seguidores sejam atropelados e esmagados por veículos de grande porte enquanto estiverem se banhando em um de seus baixos rituais.

    Meus agradáveis devaneios são interrompidos por uma visão perturbadora. Uma menina, que mal deve ter completado seu décimo ciclo vital, está com apenas parte do corpo visível. Quero acreditar que o resto está inteiro e ainda faz parte da pobre vítima, mas meu lado cético me dissuade disto amargamente. O que mais me aterroriza é o fato dela ainda estar viva.

    Ela segura o que parece ser um de seus joelhos, como se ainda não tivesse nascido. É tarde demais para isso, pensei, mas não disse, pois é algo que ela definitivamente não precisa ouvir. Sua cabeça se move e a idéia de que ela poderia simplesmente se soltar e rolar até meus pés me deixa ainda mais consternado.

    Sua face se volta em minha direção. Cabelos claros, pele de criança, admirável estrutura óssea típica das melhores linhagens. Sua delicada beleza é arruinada por uma extrema expressão de agonia, como se ateassem fogo a uma bela obra de arte. Minha inércia passiva e silenciosa é quebrada quando, entre gemidos de dor, ela resolve se comunicar.

    “Que dor...”

    Eu me aproximo, para que a lâmina daquele lamento possa rasgar meu coração mais de perto, e digo.

    “Só quem tem muita dor é que pode sentir a máxima felicidade. Ouça-me e dê-me crédito, pois não costumo mentir para agradar ninguém. Quando estiver imersa no pico do bem estar, sentirá saudade desta dor, portanto grave-a bem em seu coração e recorde-se dela sempre que precisar.”

    Minhas palavras passam por suas orelhas dilaceradas de maneira tímida, porém sincera. Ela começa a chorar, pois apenas agora compreende sua situação de vítima moribunda. Interpreto os sinais de sua linguagem corporal como espasmos resultantes da triste constatação que de que tudo aquilo era muito mais que um pesadelo. Também não me escapa a sua raiva, pois assim interpreto o discreto soco que ela dá num pedaço de algo que jazia ao seu lado.

    “Não consigo ficar de pé”

    “Você não precisa mais ficar de pé”

    “Meu pai. Eu preciso vê-lo, eu estava indo visitá-lo de surpresa. Preciso falar com meu pai, preciso vê-lo. Ele precisa de mim.”

    Já de joelhos, inclino-me para que suas tênues palavras não se percam no ar. Pergunto-lhe o nome.

    “Jiliante Dufel, de Ertesmull” Se alguma outra palavra houve após isto, se perdeu num engasgo sangrento. Agora não é apenas meu sangue que me cobre e me torna um registro vivo deste lamentável espetáculo.

    Não consigo pensar em nada para dizer. Talvez seja justo dizer-lhe quem havia lhe improvisado aquela horrível sepultura. Aliás, é estranho que não tenha me perguntado.

    “Querida criança, o que lhe deixou assim foi a glória de um deus. A glória que leva embora tudo que é mortal. Existem maneiras mais estúpidas de ir embora, sabia? Seu pai compreenderá. Seja lá que tarefa você tenha deixado incompleta, ela já não é mais digna de ser concluída por suas mãos.”

    Ela estremeceu:

    “Um deus? O que eu poderia fazer contra um inimigo destes?”

    Mais uma vez é a estranheza que me embaralha os pensamentos. Quer dizer que esta menininha esperava inimigos, mas se surpreende por ter sido um deus? Não, é bobagem, não é algo que possa causar qualquer estalo de sentido em minha cabeça atordoada.

    “Jili, este deus veio só por sua causa?”

    “Ele não falou.”

    “Você o viu, pobre Jili?” Disse acariciando sua cabeça pegajosa de sangue.

    “Não.”

    Um minuto de silêncio. Não vejo mais nada a não ser uma criança apavorada e completamente frustrada. Seu corpo todo parece reclamar de algo além de sua estampada desventura, algo que eu não me atreveria a tentar descobrir. Cada pergunta que ela me respondia era um assopro de vida infantil que se perdia. De repente, vejo que seu bracinho aperta contra o corpo um envelope. Eu o alcanço, mas ela não quer largar. Eu puxo devagar, mas ela não cede.

    “Jili, isto é para seu pai? Não abrirei, levarei até ele se for. Faço-lhe esta promessa por ter compartilhado comigo estes seus momentos”.

    Então ela solta o envelope. Posso estar sendo enganado pelo sangue, mas acho que vejo agora uma expressão mais serena.

    E apagou.


    Continua...
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    • #3
      Pela primeira vez em minha vida, senti-me incumbido de uma missão. Não que nunca tenha tido responsabilidades, mas é que o fato de ter testemunhado uma vida se consumir, o animado cessar para o inanimado, fez com que este dever recém contraído se me afigurasse como algo sagrado, algo que eu nem me atreveria a contestar. Uma obrigação à qual me sujeito sem qualquer compressão de minha livre vontade.

      Este pensamento tomou minha atenção, poupando-a de todo aquele estrago que me cercava. Caminho agora em direção ao meu carro, na certeza de encontrá-lo de rodas para cima como da última vez em que estive nele. Quanto tempo teria se passado? Percebo que há outros veículos abandonados que marcam a estrada em desenhos mórbidos de colisões. Não testarei minha sorte olhando o que resta sobre seus bancos. Talvez no próximo desastre. Aí está, mais amarrotado do que esperava encontrá-lo, a testemunha de minha rotina, agora um monte de terra. Terra, nada mais do que terra.

      Olho a estrada e sinto o tanto que há para se pensar, pois então, que meus próximos atos sejam divididos em etapas. Primeiro, decidir o que fazer, depois pensar em alguma construção de sentido que eu possa invocar nos momentos em que meu lado pessimista me sugerir a desistência. Então, pensar em como fazer e, por fim, com quem fazer, pois seja lá o que eu tenha decidido na primeira etapa, com certeza será algo para se fazer com os amigos.

      Muito bem, minha primeira decisão é continuar seguindo por esta estrada aqui. Dou um, dois, três passos e o plano todo parece estar funcionando muito bem. Nenhum imprevisto a me atrapalhar, e os pés fazendo sua parte enquanto o horizonte sobe e desce à minha frente. Minha próxima decisão é relaxar minha mão direita que aperta o envelope contra meu peito. Não devo amassá-lo e é um esforço totalmente desnecessário agora que minhas energias não se encontram exatamente em seu pico. Escolho guardar o envelope no bolso da jaqueta para que possa ir ao passo seguinte: descobrir algum modo de parar de ranger os dentes, pois isto não é nada bom e minha mandíbula já me provoca uma dor muito desagradável.

      Muito bem, agora esse sangue todo, o que devo fazer com ele? Bom, este jamais vai sair daí, então não devo me preocupar. Aliás, parece até mesmo o suco que tomei em companhia de minha mãe pela manhã, vejo que até mesmo rouba-lhe o sabor, numa cachoeira que saiu de um rio, em que um homem navega com um barco enquanto lhe atiram palitos de dentes, numa época em que todos usam máscaras e pensam que são animais na floresta que é uma farsa, e todos descobrem, numa grande epifânia, que ninguém via o que era real, então uma guerra me força a machucar um punhado de gente e eu tenho que me esconder dentro de uma caverna. Estou com frio num lago de lava e alguém pede para me deitar, e eu só consigo ver com os olhos da mente pois meus olhos físicos pensam que meu cérebro está dormindo.

      “Leve este saco embora e traga uma maca, esse aqui ainda não morreu. Vai rápido!”

      “Estou indo!”

      “Anda logo que ele está vomitando sangue!”


      Continua...
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      • #4
        Minha primeira impressão é a de que só passou meio segundo, mas logo descarto este entendimento como mais um truque do tempo, este estelionatário. Estou deitado e obviamente numa casa de recuperação, sem que precise nem mesmo olhar ao meu redor para chegar a tal conclusão. Um maldito enjôo de estômago é a primeira novidade da vida que me começa com este repentino despertar. Logo depois, vêm as lembranças de tudo que aconteceu, inclusive as imagens borradas de um delírio. Não quero me concentrar nelas, pois nem mesmo se passou um tempo decente, e eu já me sinto totalmente enfastiado com o meu atual estado.

        Não estou surpreso, sei como vim parar aqui. Sei por que estou aqui, mas infelizmente nada disto basta para que eu possa ir embora e fazer seja lá o que eu resolvesse após voar pelas janelas desta casa. Obviamente, estão injetando algo no meu braço, mas nem para me surpreenderem com um veneno poderoso, ou uma droga pesada estas pessoas servem. Que pensamentos são estes? Não são os delírios de outrora, apenas os habituais anseios descabidos de uma alma inquieta e extremamente irritante. Eu tenho infligido perturbações tão detestáveis a mim mesmo que já assimilei total empatia por aqueles que precisam conviver comigo.

        Fizeram um bom trabalho com os curativos e devem ter bombeado um sangue aqui para dentro destas veias, senão minha mente já teria empalidecido e meus pensamentos se desfeito para sempre, como os de Jili, a garota que vi morrer. Costumamos tipificar este tipo de morte como força maior, mas não posso deixar de evitar o luto por um verdadeiro assassinato. Sim, pra mim estes deuses são assassinos, não são causas naturais como o tempo ou descargas elétricas vindas do céu. Nunca pude olhar nos olhos de um deus, mas se tivesse esta cara oportunidade, tenho certeza de que confirmaria esta ilação.

        Estas roupas não são minhas, não tenho o envelope comigo. Deve estar em algum lugar por aí. Sim, toda vez em que estive numa casa dessas, eles me devolveram tudo. Podem até ter jogado a roupa ensangüentada fora, mas os objetos em seus bolsos devem estar completamente seguros. Não teria esta compreensão tão rica sobre este assunto de destacada banalidade se não tivesse irrompido por tantas vezes pelas portas da emergência coberto de vômito ou sangue. Não foram tantas vezes, mas o suficiente para que resolvesse procurar por novos ares em diversas ocasiões, até que encontrei um ar cheio de poeira, em meio ao qual não se viam crianças que gargalham e se balançam em parques, mas sim crianças que gemem, lhe entregam envelopes e morrem. Preciso ligar para minha mãe.

        Mas olhe que surpresa mais neutra, há uma pessoa a dividir comigo este... triangular, sim, triangular cômodo. Malditos projetistas que conceberam um cômodo com três pontas. Na verdade, foge da minha compreensão o motivo desta bobagem estar me incomodando, pois me é nítida a diretriz de que devo me esforçar para sorrir para a vida, e estas irritações repentinas não estão ajudando. Na verdade, até que o ambiente desenhado deste modo ficou interessante, pois em uma das pontas está a porta, fazendo com que a pessoa que entre se sinta numa espécie de encruzilhada: somente dois doentes, um em cada vértice, mas tantas e tantas possibilidades de combinações de diferentes moléstias e tantos tipos de curiosos ferimentos que um deles pode ostentar, como os de quem sobrevive a ataques divinos. E em qual dos dois se deve apostar como o sobrevivente?

        Olho e percebo que quem deita na cama defronte à minha é um homem já de idade, cuja feição faz com que eu pareça ser um otimista radiante. Tento detectar em que parte sua saúde foi abalada a ponto de ser necessária a internação. Externamente, nenhuma fratura se apresenta, apensas a fisionomia de um espírito fraturado. O que aconteceu com este homem? Mais importante ainda, será que realmente me interesso em saber?

        Está acordado, e não mais totalmente deitado. Apóia as costas de modo a ficar com os olhos voltados aos meus, não podendo desviá-los sem um esforço que um convalescente não poderia se dar o luxo de dispender. Eu resolvo quebrar o silêncio:

        “Tudo bom?”

        “Tudo bom”.

        Metade da tensão que ali pairava se esvaiu com este início de diálogo. Todos já experimentaram a sensação de alívio que decorre do estabelecimento de um novo canal de comunicação, algo que nos permita baixar a guarda, mesmo que temporariamente. Assim ocorre porque uma das coisas que mais tememos é que sintam raiva de nós sem fundamento algum. O natural para a nossa consciência é que primeiro troquemos idéias e experiências para que só então, se for o caso, nos odiemos, briguemos e pensemos em ardis e traições.

        “Há quanto tempo estou aqui?” Perguntei.

        Ele joga a cabeça para trás e deixa o ar escapar de seus pulmões num assopro longo e ininterrupto que interpreto como o prenúncio de uma resposta que não me será agradável.

        “Você está aqui há quase quatro meses, desacordado.”

        Será possível? Não posso ter ficado no escuro por tanto tempo! Não vejo ninguém, será que me esqueceram? Será que não sabem que estou aqui? Será que aconteceu algo a eles também?

        “Mentira, você está aqui há dois dias.”

        Muito bem, as primeiras impressões que tenho do sujeito são as de que seu caráter é tão desagradável quanto sua cara. Já penso que, após mais algumas linhas de diálogo estarei chegando na fase dos ardis e traições. Mesmo assim, eu solto o ar para que o compasso natural de minha respiração seja retomado e esboço um sorriso em reconhecimento ao gracejo, que apenas não foi bom porque me vitimou.
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        • #5
          Segue um silêncio, mas um silêncio que não era um constrangimento, apenas uma circunstância esperada em uma conversa entre duas pessoas miseravelmente doentes. Ele não me pergunta o que causou a degeneração de minha saúde, o que encontra o perfeito encaixe em minha falta de vontade de relatar o ocorrido. Pela primeira vez, em nossa breve convivência no estado consciente, concordamos em algo. Ainda que implicitamente.

          Ao observar seu rosto com mais atenção e cuidado, me vem a idéia de que talvez eu esteja dividindo a sala com o homem mais sozinho e desconectado do mundo. Com este pensamento vibrando em minha cabeça, resolvo perguntar.

          “Senhor, não pude deixar de notar que o rótulo de acidentado não lhe veste bem. Também não consigo perceber nenhum rastro de nefasta moléstia em seu corpo, portanto, estando eu ocupado demais com minha própria recuperação para simplesmente ir embora, penso que vale a pena satisfazer minha curiosidade em relação ao senhor. Então, poderia me dizer por que está aqui?”

          A súbita aparência de interesse que parte de mim se choca contra o escudo invisível deste homem. Posso ver em seus olhos que este é daqueles espíritos que defletem, na medida do possível, os contatos humanos. A desconfiança toma sua face, mas sem muita agitação, apenas a expressão de um desconforto que ele está cansado demais para esconder. E cansado pelo esgotamento que apenas anos de sobrevivência com personalidade socialmente inadequada pode causar.

          Às vezes eu faço isto, analiso as pessoas. Achei que tinha um talento, mas vi que o talento era outro, a criatividade. Muitas vezes, meus castelos de significados são demolidos pela mais leve revelação da personalidade das pessoas que observo. Terei razão acerca deste velho?

          Ele demora para responder.

          “Trouxeram-me para cá porque quase morri. Foi por pouco que não caguei até a morte.”

          Meus pensamentos se embaralham por um momento. Muito bem, preciso cuidar destas imagens intrusivas que passam por trás de meus olhos. Este sujeito já tentou me enganar uma vez, e este discreto sorriso que se desenha em seu rosto me confunde. Não, ele não está mentindo para que eu pare de perguntar, apenas não conseguiu revelar o teor de seu infortúnio sem rir de si mesmo. É bastante compreensível, já que um caso destes desafia o siso em seu recato mais rígido.

          “Existem maneiras mais estúpidas de morrer, sabia?” Eu disse.

          “Eu sei. Mas imagine o meu embaraço, a casa cheia de convidados, pessoas que eu conheço há tantos anos, mas sem realmente conhecer, pessoas com as quais eu apenas compartilhava um juízo superficial de imagem social. Numa triste seqüência de eventos toda esta imagem despenca para dentro de uma fossa que todos fingiam desconhecer. Por fim, eles viram que eu não era quem eles pensavam, eu era apenas um cagão.”

          Dou risada, envolvido pelo discurso gracioso.

          “Um monte de convidados. Minha mulher ficou tão furiosa que nem veio me visitar. Não entrou em contato e não mandou recados, pelo menos nenhum que encorajasse o portador da mensagem a revelá-lo. Sempre que pergunto da Mip, minha mulher, eles disfarçam e mudam de assunto. ‘Ela mandou algum recado?’, eu pergunto, mas eles preferem não dizer, fingem que ela não disse nada.”

          “Por que ela não lhe dá atenção alguma em sua doença? Qual a razão de tanta ira?”

          “A Mip é uma ótima pessoa e acredito que eu também seja. Mas ao nos unirmos formamos esta terceira entidade que é simplesmente insuportável. Ela está sempre reclamando, falando de coisas que a entristecem, querendo elaborar estas mágoas comigo, mas eu raramente presto atenção ao que ela diz. Muitas vezes eu olho para ela sabe, mas na realidade estou concentrado em meus próprios desgostos. Então, ela me chama de egoísta por não dar o retorno que ela quer e por nunca dizer o que estou pensando.”

          “Por que nunca diz o que pensa?”

          Ele pára e olha para cima, como se imaginasse hipóteses.

          “Isto simplesmente seria muito perigoso, já teria perdido tudo que eu tenho se falasse exatamente o que penso. Mip nem olharia na minha cara se eu o fizesse. Já pensei nisto outras vezes, se existisse no mundo alguém que pudesse ouvir pensamentos eu nunca me aproximaria. A menos que fosse para matá-lo ou algo assim. Pois então, ela me chama de egoísta. Se as reações dela se resumissem a isto, tudo estaria num nível aceitável, mas na verdade vem tudo somado a uns ataques raivosos terríveis. É nestes momentos que minha atenção se volta a ela e então não consigo evitar, a observo mesmo, noto a raiva a sufocando, a maltratando a ponto dela querer despejar esta negatividade no mundo. Em mim, na maioria das vezes, que sou aquele que ela aponta como o causador de todos seus problemas. O pior é que depois de tantos anos, tudo que eu a ensinei foi que ficar alterada é o preço que ela deve pagar para ter minha atenção. Mas ela é muito chata, não consigo evitar.”

          “E quando ela é subjugada pela própria ira se torna interessante?”

          “Sim, fico muito mais interessado nela quando ela pode me tirar a vida. De repente, sinto a maior vontade de prestar atenção no que ela vai fazer, e fico atento para poder me desviar a tempo das coisas que ela jogará em minha direção, bem como para me desvencilhar de suas prováveis investidas. Ela é capaz de me dar uma surra quando está brava. Mas ela se acalma de maneira abrupta, enquanto eu fico em alerta por um bom tempo, sentindo o mundo e até mesmo reparando mais nela.”

          “Por medo?”

          “Acho que não, eu apenas fico impressionado.”
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          • #6
            E ele prossegue:

            "Mas desta vez, minha consciência não durou para ver Mip se recuperar. Sabe, era uma festa que ela vinha preparando há algum tempo, com um empenho tão exagerado que causou certa estranheza em alguns. Começaram a olhá-la diferente. Aqueles que não se disparavam a julgar, a viam cheios de curiosidade, os demais se reuniam para comentarem seus modos e sua sanidade, de já desgastada reputação. O que intensificou o falatório foi o fato de Mip estar absorta demais na preparação da própria festa de aniversário. Eu não cheguei a usar meu tempo para compreendê-la, mas mesmo que evitasse dar-lhe oportunidades para se abrir, não impunha empecilhos se assim ela quisesse proceder. Então, quando ela tinha vontade, me explicava que andava preparando tudo aquilo porque gostava muito do processo, era, como dizia, uma atividade meditativa que a distraía de tudo que se passava dentro de si e a impedia de sabotar a própria tranqüilidade. Além do mais, ela tinha certeza de que merecia uma festa e toda atenção do mundo, ainda mais depois de ter passado tanto tempo ao meu lado.”

            “E por que vocês dividiram tanto tempo?”

            “Basicamente, por conveniência. O que penso é que as pessoas apenas se separam quando sentem a maior das frustrações. Eu me refiro ao desgosto de falhar exatamente naquilo que a pessoa acredita ser uma de suas mais desenvolvidas aptidões. No amor, a mais severa frustração vem quando a pessoa se imagina como um ser capaz de amar e de ser feliz, mas mesmo assim o relacionamento não funciona. Invariavelmente, a culpa cai no outro, tido como algo que suga a vida da pessoa enquanto ela poderia passar o tempo na companhia de alguém que tivesse a sua mesma capacidade de amar. Bem, se tem uma coisa que eu e Mip aprendemos juntos é que ambos somos pessoas totalmente incapazes de amar. Não apenas de nos amarmos, mas de amarmos quem quer que seja, e por isto mesmo não somos dominados por perspectivas ilusórias e sonhos fantasiosos com outras pessoas. Não temos a frustração que motiva alguém a buscar um novo relacionamento, não temos esperança. É isto, nos conhecemos a ponto de termos perdido qualquer esperança no amor. Tudo que sobrou então foi a conveniência, e os filhos, que aliás estavam lá quando tudo aconteceu.”

            “Como foi?”

            “A festa estava sendo um grande sucesso, o que é claro, não me dava prazer nenhum. Houve todo um ritual de preparação, que percorreu dias, cujo principal objetivo era colocar-me em meu devido lugar. No dia da festa, a casa estava cheia das pessoas que ela chama de amigas. Sabe, depois dela ter dito isto tantas vezes, convenci-me de que realmente acredita nestas amizades. Nossos amados filhos estavam lá, mas não me sinto bem ao invocar suas lembranças em meio a esta exposição de frustrações. Nossos filhos são realmente maravilhosos, acima de qualquer juízo que se poderia fazer. Pois bem, como Mip é muito rica, ela escolheu pessoas ricas como amigas e pelo menos quinze dividiam a mesma sala. Impecavelmente trajados, ficamos de pé na tão exaustivamente redecorada sala de Mip, ela sorrindo, distraindo-se de seus monstros e eu sério, encarando meus monstros. Minha performance não chegou a ser decepcionante, pois todos os gestos ensinados por Mip, eu reproduzi de modo adequado, sem exageros e sem deixar transparecer a artificialidade. Cheguei mesmo a conversar com várias destas pessoas, sobre diversos assuntos, alguns até mesmo interessantes. Sabe, embora reconheça que um assunto pode ser interessante, o ato da conversa em si foi algo que sempre me desagradou. Por isto, tenho conversas chatas sobre assuntos muito interessantes. Lervet, um sujeito tão velho quanto eu, só que muito mais canalha, parecia muito empolgado ao falar sobre as novas revelações dos sacerdotes. Parece que estas informações o estavam torturando, não cabiam mais nele, e isto o levou a farejar minha falta de interação nestas questões. Lervet tratou de colocar-me a par de tudo quanto pôde imaginar. Sua namorada, muito jovem, muito adorável e, creio, muito safada, que se chamava Arvi, ou um nome afetado desses, parecia não saber de nada sobre nada, mas mesmo assim não se calava. Seguiram-se outras conversas, inclusive aquelas em que te perguntam o que você tem feito da sua vida, quando você se sente na obrigação de perguntar o mesmo, pois o tempo está aí, é uma imposição, e precisa ser morto.”

            Este homem, que não parece ser do tipo que exercita muito a fala, está me surpreendendo. Suas palavras saem cada vez com menos sacrifício e eu até o confundiria com uma pessoa sociável. Às vezes, tudo que uma pessoa precisa para se abrir é estar diante de um estranho sem nome que levará aquelas palavras embora, sem deixar vestígios, tal como colunas de vento. E ele prossegue em seu discurso.
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            • #7
              Putz, muito louco!
              ùltima Leitura: Razoável
              sigpic
              Mister No #6 (RECORD)

              http://www.tumblr.com/blog/ultimaleitura

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              • #8
                Postado originalmente por Goyo
                Putz, muito louco!
                Muito obrigado por ter lido!

                Eu parei de escrever essa história, mas tem uma boa parte que eu ainda não postei aqui. Vou colocar depois.

                Vou retomar e terminar de escrever.
                http://cenini.blogspot.com/

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                • #9
                  Quando continuar, posta aí!
                  ùltima Leitura: Razoável
                  sigpic
                  Mister No #6 (RECORD)

                  http://www.tumblr.com/blog/ultimaleitura

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