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Como se drogar em um mundo pré-apocaliptico

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  • Como se drogar em um mundo pré-apocaliptico

    Essa história se passa em um futuro pré-apocaliptico(), e seus personagens são exemplos pessimistas do que podemos esperar das próximas gerações.


    OUTSPIRE

    “Popsfera.”

    “Que?”

    “Popsfera. É assim que eu vou batizar a esfera de informação e cultura pop que constantemente se manifesta no imaginário popular. É genial.”

    “Hmm?”

    “Você sabe! Tudo aquilo de interessante, divertido ou preocupante que chama a atenção das pessoas, que elas notam e guardam na memória, mesmo sem perceber isso.”

    “Ah.. Cara, quantos você tomou?”

    “Quarenta e sete, ou trinta e cinco, sei lá. Mas isso não importa mais. É a popsfera cara, genial, genial!!”

    “Acho que outra pessoa já deve ter usado esse termo em algum lugar.. Enfim, passa o Outspire.”


    Vinil pegou o pequeno pacote de plástico e passou para Tom, que examinou seu conteúdo. Restavam apenas seis pequenas pílulas cinza e, com a ajuda de um pouco de cerveja, ele engoliu todas.

    O rapaz continuou a falar sobre suas idéias, que não paravam de pipocar, mas Tom já não prestava atenção.

    Seus olhos estavam fechados, e ele se acomodou no sofá. Quase imediatamente, o sono chegou, ou pelo menos algo muito parecido. Seu sonho foi rápido e insano, como de costume, mas quando acordou, cerca de 2 minutos depois, não conseguia tirar certas imagens da mente.

    Eram pessoas, objetos, locais e situações. A maioria incompreensíveis, mas Tom se deu ao luxo de pensar nelas por algum tempo e tentar desvendar seus significados.


    Mesmo estando sob o efeito dos mais diversos entorpecentes, (ou talvez, graças a isso) ele conseguiu ter uma idéia clara do que era a maioria daquilo: Ele, em um ringue, cercado de pessoas estranhas, vestindo apenas uma larga bermuda branca, espancando freneticamente com os punhos alguém que parecia muito familiar, mas ele não conseguia se lembrar quem era.

    Esse alguém já estava bem machucado, jorrando sangue do nariz e da boca, mas Tom não parava. Ele continuava a socar a pessoa, e em certo momento o agarrou pelo seu grande cabelo claro e deu uma joelhada em sua face.

    Nesse momento, Tom percebeu que nada daquilo estava realmente acontecendo e se esqueceu do que estava fazendo antes. Tentou lembrar, mas depois de algum tempo desistiu.


    “Que viagem, cara.” – Disse ele, começando a se situar.

    “..e quanto a verba restante, ela pode ser utilizada no pagamento dos funcionários que participaram da terceira parte do projeto, e com isso o ciclo monetário continua.”

    ´”Que?”

    “Você não tava ouvindo? Acabei de achar a solução pro problema do rombo na previdência!”

    “Sério? E qual é a solução?” – Perguntou Tom, animado, porque mesmo não lembrando o que era a previdência e que rombo era aquele, sabia que era algo importante.

    “Ih, esqueci..”

    Tom também tentou se lembrar do nome do que haviam tomado, mas toda vez que chegava perto da resposta, parecia que ela deslizava entre seus dedos e ia se esconder no limbo da sua mente, no mesmo lugar em que ficavam a maioria das suas preocupações.

    Começou então a formular uma brilhante teoria sobre uma mistura de técnicas de meditação com auto-hipnose e talvez até um pouco da tal falada neuroprogramação 2.0 para lembrar das coisas mais facilmente, mas ele e Vinil(Que, por sinal, estava propondo algumas teorias para resolver o aquecimento global em seu blog) esqueceram disso tudo quando Clever entrou na sala, carregando um Narguile elétrico e 200g de maconha refinada, exibindo um grande sorriso e gritando:

    “É hora de parar com as drogas, amiches!”




    2



    Doze horas haviam se passado desde aquilo, e o computador continuava ligado.

    Estava infestado por vários vírus, trojans e spywares, mas ninguém ali realmente se importava com isso, contanto ele continuasse ligando e realizando suas funções primarias.

    Em seu histórico havia dezenas de sites de pornografia, desde 3P(Tripla Penetração) até OMFG(Orphan Monsterbation Furryuri Gods), juntamente com algumas páginas que mostravam técnicas de guerrilha e ensinavam como fabricar bombas caseiras, além de alguns outros endereços em que, jogando alguns jogos e postando em certos fóruns, você estaria garantindo verbas para organizações terroristas das mais diversas, como os Filhos do Terceiro Messias da Flórida ou os Últimos Virgens da América.

    Mas o que realmente chamaria a atenção de qualquer um eram os diversos Gigabytes em uma pasta chamada “Não entre aqui”, que continha todo o tipo de material relacionado a qualquer coisa que pudesse deixar alguém com um estado mental alterado.

    Livros sobre a plantação de maconha e como utilizar tudo aquilo que você aprendeu em biologia no colégio para criar algo geneticamente perfeito, tutoriais ensinando a fabricar ecstasy com a ajuda de dois cães guias, vídeo aulas mostrando na pratica como purificar silicone e benzina usando apenas objetos comuns de cozinha, e até mesmo jogos educativos que dão para qualquer criança a capacidade de diferenciar qual é a planta boa da planta ruim para o cultivo e consumo.

    Nesse momento Clever estava tentando acessar tudo isso, mas a seta na tela não parecia querer obedecer ao mouse, que por sua vez não estava parecendo seguir as ordens da sua mão, que mostrava também não estar muito a fim de dar atenção aos comandos do seu cérebro, que por sua vez achava tudo aquilo muito divertido.

    Clever riu ao perceber que estava dopado demais pra mexer no computador, e resolveu procurar algo pra comer.

    Assim que se levantou da cadeira deu de cara no chão, e riu de novo.

    Levantou com cuidado e tentou re-aprender a andar. Achou isso muito difícil e se jogou no sofá, em cima de Vinil, que acordou assustado e se virou pro lado, balbuciando algo incompreensível e voltando a dormir.

    Em seu sonho, era um grande cientista, exibindo suas novas invenções em uma grande coletiva de imprensa, mas logo notando que deveria ter inventado algo para evitar que suas calças sumissem, como de costume.

    Isso teria evitado bastante constrangimento, pelo menos no mundo caótico dos sonhos.

    “Ei, cara!” – Gritou Tom, e Clever, com os olhos entre abertos, foi surpreendido com uma garrafa vazia vindo em sua direção.

    Conseguiu, com um esforço incrível, porem de modo desajeitado, pega-la com as mãos, e perguntou:

    “Pra que isso, porra?”

    Embora o que tenha saído da sua boca fosse algo mais parecido com:

    ”Whuae ishn boha?”


    “Você pegou o buquê, então tem que ser o próximo a ir pegar a cerveja!” – Respondeu Tom, claramente bêbado, entre outras coisas.

    “Isso não faz sentido, Tom.” – Respondeu Vinil, já acordado pelo barulho.

    “A vida não faz, cara. É por isso que precisamos de mais cerveja!” – Afirmou Tom.


    Contra esse argumento Clever não podia fazer nada, até porque não sentia a sua língua e estava sem a mínima vontade de pensar. Levantou pra ir pegar a bebida, mas foi de encontro ao chão novamente.

    Os três riram, e o computador permanecia ligado, fazendo o que fazia de melhor.







    3 – VISITE MEU BLOG


    Enquanto Clever tentava entender se era ele que avançava em direção a Geladeira ou era a Geladeira que vinha em sua direção, Vinil já vinha segurando três garrafas.

    “Quem acabou com o Outspire?” – Perguntou ele, ao notar o pacote plástico vazio jogado no chão.

    Clever abriu a boca como se estivesse prestes a falar algo, mas logo notaram que ele estava só tentando entender como funcionava o processo de respiração e provavelmente nem tinha ouvido nada.


    “Acho que fui eu, cara, mas sinceramente não lembro.” – Falou Tom, enquanto abria sua cerveja.

    “Ahh.. Eu queria tomar mais. O negócio é insano, tive várias idéias, mas não consigo lembrar de nenhuma.” – Disse Vinil, tristemente.

    “Cara.. Não lembro de muita coisa, minha cabeça continua meio embaralhada, mas.. Você não postou alguma delas no teu blog?”

    “Claro! Meu blog! Devo ter colocado algo lá!!” – Respondeu Vinil, já indo em direção ao computador. Assim que sentou na cadeira, olhou para o relógio no canto da tela e se surpreendeu:

    “Tom! São 13:49!!”

    Tom deixou a bebida cair no chão, e Clever teria achado aquilo um tremendo desperdício se não estivesse ocupado demais tentando lembrar se 13 era o mesmo que cinco ou quatro horas da tarde.

    “Puta merda!” – Falou Tom – “A Mel, cara, a Mel!”

    Ele então revirou a mesa cheia de papeis, copos e maços de cigarro, a procura da chave.

    “Calma, pode usar a minha moto” – Disse Vinil, entregando a sua chave, e logo em seguida tomando consciência do que havia acabado de fazer e se arrependendo.

    “Valeu, cara.” – Disse Tom, que em seguida saiu correndo pela porta do apartamento.

    Ao ver seu blog, Vinil se surpreendeu novamente: Havia, realmente, algo postado ali, e ele nem se lembrava de ter feito aquilo. Era um texto mal feito, praticamente um rascunho, mas com várias idéias e teorias brilhantes descritas nele. Infelizmente, estava inacabado.

    Quando olhou nos comentários ficou surpreso pela terceira vez:

    Dez pessoas haviam comentado sobre aquilo, o que é extremamente incomum em um blog como o de Vinil, que não publica pornografia nem nada ilegal, apenas fala sobre coisas rotineiras e às vezes posta drogado.

    Todos os comentários elogiavam o texto, a maioria pedindo para vê-lo completo, e Vinil notou que uma das pessoas que haviam comentado era dolphinguin84, dono de um famoso site sobre o aquecimento global.

    Vinil não era muito fã do negócio, até porque achava que o assunto estava sendo usado por certas pessoas e instituições para que ganhassem uma falsa imagem de que davam a mínima pro planeta, quando na verdade só queriam lucrar em cima da proposta, como todo bom estereotipo norte americano.

    Ele já não agüentava mais ouvir pessoas falando do assunto, sempre a mesma coisa, mas sabia que era algo sério.

    No comentário de dolphinguin84, ele dizia que gostaria muito de ver o texto completo e que, se fosse tão bom quanto o que havia sido mostrado, com certeza iria querer que Vinil, ou melhor, Vendetto17, postasse para o globalproblem.com.

    E é claro que isso envolvia muita grana.



    4 – TOM / MEL




    Tom chegou na frente do colégio em poucos minutos minutos, quase atropelando algumas pessoas, mas evitando sempre os olhares da policia.
    Claramente não estava em condições de dirigir, mas algumas doses de Sober e alguns goles de café o ajudaram a não fazer nada muito estúpido.


    Começou a procurar por Mel, mas foi repreendido por um dos professores.

    “Thomas!” – Disse o Professor Wayle, aparecendo por trás dele. – “Você não veio à aula hoje, garoto. Então, me diga, porque está aqui, agora que ela já acabou?”

    Tom poderia muito bem ter inventando uma série de mentiras e contado uma surpreendentemente plausível historia sobre o porque daquilo tudo, já que era muito bom nisso, mas seus pensamentos ainda estavam confusos devido a tudo o que havia feito na noite anterior e as cervejas do dia de hoje.


    Então, limitou-se a dizer:

    “Não te interessa, cara.”

    E saiu a procura de Mel, deixando o Professor Wayle realmente nervoso.



    Qualquer um conhece Tom no colégio Yourhigh.

    Ele, apesar de não participar de nenhum clube ou time do colégio, tem muitos fãs no local.

    Não é qualquer um que tem o que ele tem, e alguns o invejam.

    Claro, ele é alto, tem cabelos escuros e bonitos, apesar de nunca estarem penteados, e seus olhos verdes são verdes demais pro padrão do local, alem de ter uma pose de quem não dá a mínima pra nada e parecer sempre calmo ou desinteressado, mas não é por nada disso que ele é famoso.

    Ele é famoso porque é praticamente parte do folclore local. Ele está no imaginário popular, na popsfera, como diria o inspirado Vinil.

    Já o chamavam de drogado muito tempo antes dele ter posto até mesmo um cigarro em sua boca. Já diziam que ele não ligava pra nada antes mesmo dele saber o significado da palavra blasé. Já previam que ele não seria ninguém na vida antes mesmo que ele decidisse o que queria ser.

    Diziam tanto que, a partir de certo momento, ele se cansou de ir contra tudo isso e resolveu ser o que falavam de uma vez, pra evitar problemas.

    “De que adianta contrariar eles?” – Pensava Tom, enquanto acendia um baseado em um canto qualquer.


    Na verdade, nunca gostou muito do apelido “Tom”, mas todos o chamavam assim, e acabou se acostumando.

    Com o tempo, ele deixou de se importar.

    Não se importava mais com as notas, e faltava sempre que possível.

    Nada naquele lugar era importante para ele, até que conheceu uma garota da sala ao lado chamada Melissa..

    Mel era o amor da vida dele, ou seja, com sorte o relacionamento duraria alguns meses.

    Ela tinha cabelos pintados de azul, com olhos da mesma cor, naturais. Ou não. Tom nunca se importou em perguntar.

    Ele não falava muito, nem quando estava com ela.

    Tom sempre fora perseguido pelos professores e pela diretoria do colégio, que, ao verem algum aluno conversando com ele, já avisavam aos seus pais sobre os perigos do garoto que, caso você não saiba, “foi pego outro dia fumando nos arredores do colégio com uma gangue famosa da cidade.”


    Isso só o tornava mais e mais famoso. Todos falavam sobre o rapaz, porem a maioria tinha medo de falar com ele, ou ser vista fazendo isso.

    Mas Mel era diferente. Rebelde desde pequena, quando pichou sua primeira camisa com o símbolo da anarquia.

    Claro que não entendia direito o que significava o movimento anarquista, mas a maioria dos membros dele também não, e mesmo assim vestiam mascaras sorridentes e saiam por ai explodindo prédios.



    Então, ela se aproximou dele, movida pelo mesmo sentimento que alguém tem ao ver uma caixa em que está escrito “Não abra.”, juntamente com a sua incontestável necessidade de ir contestar as massas.

    Começaram um relacionamento, mas agora, depois de dois meses, ela já havia se decepcionado ao perceber que ele não aparentava ser mais nada do que diziam que ele era.


    E agora já estava esperando-o há 15 minutos, pensando sobre tudo isso.

    Ele havia prometido ir com ela fazer algo depois da aula. E, como sempre, Tom havia dito que mesmo se não fosse à aula, iria encontrá-la assim que terminasse, no portão C do colégio. Ela já estava decidida que, se ele não aparecesse nos próximos 5 minutos com uma desculpa terrivelmente boa, iria desistir dos garotos e virar lésbica. Ou, pelo menos, desistir desse garoto em particular.


    Enquanto isso, no portão A, Tom se desviava da legião de olhares que eram lançados sobre ele, a procura de um rosto familiar para perguntar sobre Mel.

    Infelizmente, não lembrava nem das pessoas da sua sala, e após algum tempo se sentou em um banco, frustrado.

    Pensou sobre o que havia sonhado na noite anterior, e teve uma pequena dor de cabeça ao tentar fazer isso. Lembrou do Outspire, e de como havia sido bizarro toma-lo pela primeira vez. Talvez fosse melhor tomar de novo, gravar o ocorrido e começar a lembrar das coisas, pra variar.

    Então se lembrou de que havia combinado encontrar Mel no portão C.

    Nesse momento, já havia ficado bem claro para Tom(e para ela) o quão idiota ele era.

    Saiu correndo, atravessando multidões de alunos e derrubando alguns no caminho, deixando muita gente se perguntando qual seria o motivo de tenta correria.

    Logo, algumas teorias surgiram sobre aonde ele estaria a ir, a maioria envolvendo drogas e coisas ilegais, mas existiram duas que, apesar de não terem ficado populares, tiveram seus méritos.

    A primeira foi feita por Edward Pollato, um imigrante de algum lugar que ninguém dá a mínima, que ao ver o famoso Tom correndo na direção da saída mais próxima ao cinema, disse para quem estivesse a fim de ouvir:

    “Aposto que ele foi ver o novo filme do Quentin Tarantino, estreiou hoje! Se não fosse a aula de robótica agora, eu iria também..”


    A segunda não é bem uma teoria, mas teve o seu mérito:

    “Por mim, ele pode ir pro inferno.” – Disse Mel, quando ele passou por ela, sem vê-la.



    Tom estava andando, mas toda aquela correria já havia o deixado bastante tonto. Encostou-se a uma parede próxima de uma das cantinas e tomou um pouco de fôlego.

    “Aonde fica o portão C mesmo?” – Pensou ele, com sua mente conturbada.

    Depois de três tentativas de pedir informação para alguém(na maioria dos casos as pessoas se afastavam dele, apreensivas ou achando que era uma piada), ele encontrou uma funcionaria que informou aonde realmente ficava o portão C, não sem antes passar um rápido sermão sobre o quão lamentável era o estado do rapaz.

    Ele chegou lá, e ela não estava.

    “Bom, fiz minha parte” – Pensou ele, tentando alcançar seu novo objetivo: Descobrir aonde havia estacionado a moto.



    5 – TARANTINO MOTHERFUCKER


    No apartamento, Vinil escrevia no computador, lendo o que estava na tela de tempos em tempos para não se perder no meio do negócio. Depois de Nove paginas do que havia digitado no programa, leu tudo de uma vez e chegou a conclusão de que aquilo era um grande pedaço de merda.

    Claro, ainda poderia ganhar uma nota boa no colégio com um texto desses, mas não chegava nem aos pés do que ele havia feito em seu blog, quando estava sob o efeito do Outspire.

    Deletou tudo aquilo e começou a pensar em como iria conseguir mais da droga.


    “Ei, Clever.” – Disse ele, jogando uma bolinha de papel no homem que dormia no sofá.

    “Hmmm?” – Foi o que ele pronunciou, como quem espera realizar uma conversa sem ter que acordar totalmente.

    “Aonde você conseguiu o Outspire que nós tomamos ontem?”

    “Outspire? Que Outspire??” – Perguntou ele, subitamente se levantando.

    “Como assim? Nós estávamos tomando ontem, e logo em seguida você trouxe aquelas 200g..”

    “Amiche, eu não sei nada de Outspire! Isso é coisa perigosa, mexe com a tua mente!” – Respondeu Clever,

    “Não vem com essa.. Tudo mexe com a mente, você sabe.. Até uma porcaria dum chocolate mexe com a tua mente.. Mas afinal, se não foi você que conseguiu o negócio, foi quem?”.

    “O negócio é sério, amiche! Esse negócio te faz pipocar de idéias, mas fode com o teu subconsciente inteiro! Tu não fica doido só da memória não, tua vida toda pode mudar com isso!” – Disse ele, seriamente preocupado.

    “Ah, não vou ficar ouvindo essa palhaçada. Vou procurar o Tom, preciso de mais Outspire, ai vou conseguir uma boa grana, te pago meio quilo e você fica de boa.” – E em seguida saiu pela porta, deixando Clever sozinho no apartamento.

    “Bom, pelo menos agora posso andar pelado pela casa” – Disse ele, e tirou as calças enquanto acendia um baseado.

    Enquanto isso, Edward Pollato havia matado aula para ver o novo filme de Quentin Tarantino que, no final das contas, não era assim tão bom.






    6 – JUST LIKE CHICKEN


    Tom estava num bar próximo ao colégio, bebendo qualquer coisa de alto teor alcoólico e comendo algum lixo cheio de conservantes que era servido ali.

    Alguns minutos atrás, enquanto procurava por sua moto, fora surpreendido por dois seguranças do colégio, no pátio. Eles o pegaram, cada um por um braço, e falaram que ele tinha que sair dali.

    “Ei! Eu sou estudante!” – Gritou ele, enquanto era arrastado.

    “Não é mais.” – Disse o Professor Wayle. – “Uma coisa é faltar às aulas e tirar notas ruins, garoto. Mas se comportar desse jeito, desrespeitando os professores e criando confusão no pátio, ainda mais sob o efeito de drogas, é totalmente inadmissível.”

    O Professor Wayle, na verdade, era um cara legal.

    Todos os outros professores já julgavam Tom antes mesmo de conhecer o garoto, e eram contra a permanência dele no colégio, mas Wayle tentava ser mais compreensível com o jovem Thomas, e sempre o defendia nas reuniões.

    Porem, de uns tempos pra cá, defender o garoto havia se tornado impossível. Wayle havia tentado aconselha-lo, mas ele parecia não dar ouvidos.

    Hoje havia sido a gota d’agua.


    Tom, mesmo sendo levado por dois enormes seguranças, se soltou por um breve momento, no qual acertou um forte soco no rosto de Wayle, que perdeu o equilíbrio e caiu.

    Nem mesmo ele soube direito o porque disso, e resolveu botar a culpa nas substancias que havia ingerido, o que deixou sua consciência um pouco mais leve.

    Subitamente, se lembrou do local aonde havia deixado a moto, e resolveu que o melhor a se fazer era correr em direção a ela.

    Apesar da perseguição, conseguiu alcança-la a tempo e dirigi-la, mas assim que virou a esquina percebeu que não tinha lugar algum pra ir.

    Resolveu entrar no Butteko’s, que ficava próximo ao colégio, mas sem chamar a atenção de ninguém dali.

    Sentou-se, fez o pedido e sentiu uma grande necessidade de fumar qualquer coisa.

    Porem, antes que pudesse satisfazer esse desejo, Vinil entrou no local, extremamente animado.

    “Tom, ai está você!” – Dizia ele, se aproximando. – “Estou te procurando faz um tempão! Aonde está a Mel?”

    “Não sei.” – Respondeu Tom, honestamente, mas sem parecer preocupado.

    “Bom.. Melhor assim..” – continuou Vinil – “Preciso que você me consiga mais daquele Outspire.”

    Tom ficou pensativo por alguns segundos, arrumando os fatos em sua mente e confirmando certas coisas antes de dize-las.

    “Vinil, cara.. Foi o Clever que conseguiu aquilo pra gente.” – Disse ele, enquanto terminava de comer um salgadinho de sabor desconhecido.

    Mais tarde, enquanto pensava sobre o salgadinho, Tom chegou a conclusão que ele provavelmente era de frango. Ou granola, talvez. Algo entre os dois.


    7 – VISITA

    No apartamento, Clever estava deitado no sofá, ocupando sua mente das mais diversas maneiras. Primeiro, fumou um pouco de maconha. Depois, fumou mais um pouco.

    Mais tarde, tentava se decidir se levantava ou não, e assim que fez sua escolha e começou a fechar os olhos, uma bela garota entrou no local.

    “Mel.” – Disse ela, se apresentando, enquanto entrava no local sem olhar diretamente pra ele.

    “Mel Pal” – Comentou Clever, rindo da sua própria genialidade com as palavras, e em seguida notando que estava nu, e dando mais algumas risadas com isso.

    A garota o ignorou e foi em direção ao quarto de Tom, que estava obviamente destrancado, como a porta do apartamento. “Drogados.. Uns esquecem de fechar a porta, outros de usar roupa..” – pensava ela. – “..e alguns esquecem das namoradas, mas esses tem mais é que se foder.”

    Deu uma boa olhada no quarto. Fazia algum tempo desde a ultima vez que havia entrado ali, e se lamentava por ter que entrar novamente.

    Era um local sujo e desarrumado. As paredes eram pichada e rabiscada pelos mais diversos e aleatórios desenhos, tornando sua cor original um verdadeiro enigma.

    No chão, que era cheio de baixos relevos, havia todo tipo de embalagem usada. Mel não se surpreendeu ao encontrar o pacote de camisinhas (especiais, que prolongam o prazer, compre já!) que havia comprado e usado com Tom ali.

    Algumas seringas, um Bongue, meias, pequenos pacotinhos plásticos vazios, várias latas de Duff, SmirnON, Coca, NewColla, Polar Beer e alguma marca japonesa bizarra, junto de várias garrafinhas plásticas, algumas com pequenos furos redondos(Os quais Mel tinha uma certa idéia de para que serviam), papeis amassados, um antigo PSP e muitas outras coisas que, se fossem listadas aqui, talvez perturbassem algumas mentes e prolongassem essa enorme lista ainda mais, então, para evitar isso, vamos deixar bem claro que ela não encontrou o que procurava.

    Virou sua atenção ao grande armário verde, e assim que o abriu notou que ali só havia duas camisas mal passadas, algumas calças jogadas e uma pilha de cuecas mal lavadas.

    Olhou no criado mudo, e também não encontrou.

    Resolveu arriscar, e olhou embaixo de uma das cuecas mal lavada.

    Ela gostava de viver perigosamente.





    De fato, ali estava a foto: Ela e Tom, algum tempo atrás, no Festival do Fim do Mundo, se beijando

    Pegou e colocou na bolsa. Em seguida saiu do quarto, fazendo questão de pisar na maioria das coisas que estavam no chão.

    Na sala, Clever ainda tentava decidir e dormia ou não.

    “Posso pegar um pouco?” – Perguntou Mel, já de saída, se referindo as 200g restantes de maconha, em cima de uma mesinha.

    “Eu é que não vou sair correndo pelado atrás de você se pegar” – Disse ele, e fechou os olhos.

    Ela pegou um pequeno punhado e colocou na bolsa, e em seguida saiu.

    Na frente do prédio finalmente encontrou Tom, que vinha com Vinil esclarecer algumas coisas com Clever.

    Tom abriu um largo sorriso quando a viu, mas ela passou reto, ignorando-o.

    Ela queria que ele viesse pedir atenção, mas Tom achou melhor deixar por assim mesmo, e entrou no prédio.


    Lá em cima, Clever finalmente dormia.

    Sonhava que havia acabado de acordar, e estava nu. Então, uma bela garota apareceu ali, e ele propôs que ambos fizessem sexo, já que ele estava pelado e aquilo tudo provavelmente era um sonho.

    Ela concordou.


    8 – CLEVEREN D. MARTINI


    Enquanto isso, em outro lugar de sua mente, ficavam as suas lembranças. Claro que, com seu modo de vida completamente auto destrutivo, a maioria delas estava bem confusa.

    Pelo menos, ele ainda lembra de que fora adotado aos quatro anos por seus atuais Pais, Michael e Ikari.

    Não lembra nada da sua passagem pelo orfanato, nem de ter de fato estado em um, mas durante toda a sua vida ficou extremamente obvio o fato de que era adotado.

    Mas ele não considerava nada disso um problema. Acostumou-se bem a situação, e o fato de que sua família adotiva era rica o ajudou a superar qualquer trauma que pudesse eventualmente ocorrer com ele ao longo da sua vida.

    Por isso, a infância foi normal.

    Um certo dia, por volta dos seus 13 anos, notou que tinha cabelos loiros, e isso meio que mudou sua vida, por alguns minutos

    Ai se lembrou que havia tomado uma droga qualquer na noite anterior.

    E foi assim nos anos seguintes. Drogava-se, sempre querendo experimentar sensações novas e bizarras. Aos 17 já havia tomado a maioria das drogas sintéticas criadas pelo homem. E acredite, são muitas.

    Ele causava cada vez mais problemas, desrespeitando todas as regras que lhe eram impostas e abusando da paciência dos seus pais, como um bom exemplo de adolescente.

    “Você não pode mais voltar tão tarde, Cleveren.” – Dizia Michael

    “O caralho” – Respondia Cleve.

    “Vamos cortar o seu cartão de credito.” – Ameaçava Ikari

    “Então eu começo a roubar vocês” – Retrucava Clever

    “Então nós chamamos a policia, garoto!” – Respondia Michael, já irritado.

    “Ai eu falo pra eles sobre aquela conta em Brasília e os negócios em Paris” – Dizia Clever, com um sorriso no rosto.

    De fato, ele, influenciado por alguns “amigos”(os mesmos que o apresentaram as drogas), havia se informado bastante sobre maneiras de se garantir sozinho na vida, usando os outros.

    Segundo eles, Clever não tinha realmente porque seguir o que seus pais lhe diziam, claramente já tinha idade suficiente pra se defender contra qualquer ameaça física(o que seus pais não faziam. Eram, na verdade, pessoas bem calmas.) e não precisava se submeter a castigo algum.

    “É bem simples, na verdade.” – Explicava Jerik-O. – “Você não é controlado por nada alem de você mesmo!”.

    “Muita gente reclama que os pais não deixam isso, aquilo, e blábláblá. E ainda dizem que não podem fazer nada pra mudar isso.
    Pois eu digo que podem! Pense comigo: Eles podem te bater? Não mais. Se defenda, nem que pra isso tenha que usar armas. Eles podem parar de te dar dinheiro? Comece a roubar deles. Se ficar complicado, ameace roubar dos outros. Eles não vão querer que você suje o nome da família com coisas assim, e vão acabar cedendo.
    Ok, ok. Você me diz que mora na casa deles, e tem que seguir as regras deles.”

    “Pois não é nada disso, meu caro. É só um jogo, você tem que parar de pensar neles como seus pais e sim como pessoas que querem te impedir de fazer o que você quer fazer.”

    “Arranje algo pra fazer chantagem. Se eles podem fazer com você, porque não fazer com eles?”

    “Todo mundo tem segredos, e alguma coisa você pode usar contra eles. Meus pais, por exemplo. Meu velho traia a minha mãe, e eu consegui algumas fotos. Pronto, nunca mais tive problemas com ele.”

    Jerik-O morreu durante uma briga com seus pais, quando seu tio, que havia usado algumas de suas drogas, lhe de um tiro na nuca.

    Seus ensinamentos, porem, influenciaram gerações de delinqüentes.



    Os pais de Clever, que já haviam se arrependido de ter adotado o garoto, fizeram um acordo: Ele ganharia uma boa quantia por mês, mas sairia daquela casa e jamais voltaria.

    Clever aceitou, e foi viver com alguns amigos em um apartamento.

    Hoje tem 19 anos, e continuaria achando isso tudo muito divertido, mas foi acordado por Tom e Vinil.

    “Quero saber aonde você conseguiu o Outspire, e sem mentiras agora, cara.”

    “Ok, ok, eu matei aquela vadiazinha, mas foi só porque ela tinha um pênis.” – Respondeu ele.




    9 – Frases.

    Algo que deve ficar bem explicado:

    Clever é o que pode ser chamado de desocupado, mas se você preferir, pode chamá-lo de vagabundo.

    Quando não está fazendo coisas ilegais fora de casa, está fazendo as mesmas coisas dentro.

    Sua situação monetária é, de fato, tão cômoda que ele não precisaria nem levantar do sofá se não estivesse afim, e geralmente ele não está.

    A maioria do que comia era entregue na porta de casa, ou então trazida pelos outros moradores do apartamento. Também não via nenhum bom motivo para ir a faculdade, e por isso passava a maior parte do dia assistindo seus programas preferidos em seu TiVo.

    Entre suas séries favoritas estava Mixhos, que era um dos grandes sucessos da época. Não era nada muito genial, mas seus mistérios intermináveis e suas incontáveis frases de efeito garantiam uma grande legião de fãs, e Clever estava entre eles.

    Gostava de usar, sempre que possível, tais frases. “Não é possível, Senhor Ducand.” – Dizia um dos personagens da série, pouco antes de ser esmagado por um coelho rosa gigante, bem no meio de uma ilha deserta. “Me gusta pornografia elefantina, amiche” – Comentava Mendez, o personagem supostamente brasileiro da série, que orientava todos nas caminhadas pela floresta porque, já que vinha do Brasil, provavelmente conhecia tudo sobre isso.

    É claro que “Ok, ok, eu matei aquela vadiazinha, mas foi só porque ela tinha um pênis” também fazia parte do vocabulário da série, pois tinha sido dita pelo Senhor Ducand, o herói da série, e Clever achou que seria algo apropriado para dizer naquele momento.

    Mas aparentemente não era.

    “Estamos falando sério, Cleve.” – Explicava Vinil. – “Quando eu te perguntei aonde você havia pego, você me disse que não sabia nada sobre aquilo e que era perigoso. Mas Tom me disse você é que havia conseguido tudo , então que tal falar a verdade?”.


    “Não se preocupe, amiche. Eu posso explicar tudo.” – Disse Clever.

    E então tentou achar a explicação em sua mente. A principio, pensou sobre Mixhos, quando Mendez fora acusado por D-Dog de roubar toda a comida do grupo, e mesmo tendo uma desculpa convincente, seu sotaque improvável arruinou tudo, e ele tomou alguns tiros no traseiro, já que D-Dog era negro e odiava estereótipos raciais. A série perdeu bastante audiência a partir daí, e Clever começou a perceber que nada disso iria ajudá-lo na situação em que se encontrava.

    Então, começou a tentar repassar os momentos do dia anterior em sua mente. Não conseguiu formular nada que fizesse muito sentido, e os olhares de Tom e Vinil também não ajudavam.

    “É...” – Começou ele, e em seguida saiu correndo do apartamento.



    10 – PERSEGUIÇÃO


    “Aonde ele pensa que vai? Ele mora aqui, afinal. “ – Comentou Vinil para Tom, mas esse já estava correndo atrás de Clever.

    Vinil observou a situação acontecer por alguns segundos, e lamentando pelo fato de estar usando seu tênis novo e de não ter nada melhor para fazer, saiu correndo atrás deles.

    Clever não era magro, mas definitivamente não era gordo. Era sedentário, e nem todas as substancias que havia ingerido nas ultimas 24horas haviam saído do seu organismo, o que tornava praticamente impossível uma fuga contra Tom e Vinil, que apesar de não serem nada atléticos, eram pelo menos mais magros que ele e não haviam tido seus sonos interrompidos a cada 5 minutos.

    Mas Clever estava pelado, e a senhora McKarden, que morava no mesmo andar, esperava o elevador. Assim que viu o garoto nu, começou a ter um ataque, e Clever aproveitou para entrar no elevador, enquanto Tom evitava com que a velha caísse no chão.

    Claro que Tom não era o tipo de cara que se importava muito com essas coisas, mas algo dentro dele fez que ele acudisse a mulher, e em seguida mandasse Vinil ligar pros bombeiros ou qualquer coisa do tipo.

    Quando alcançou o elevador, a porta já havia fechado.

    Morava no 42° andar, apesar de não se orgulhar disso. E depois de tudo o que havia passado hoje, não estava nem um pouco a fim de descer aquilo tudo só pra seguir um cara nu.

    Chamou o elevador da direita, e ficou esperando.

    A senhora, que Vinil tinha a impressão de ter sido colocada ali pelo Universo só pra piorar seu dia, já estava melhorando, e agradeceu a ajuda. Ela decidiu que era melhor deixar pra sair outra hora, e entrou em seu apartamento.

    Acabou morrendo ali mesmo, alguns minutos depois.

    Enquanto isso, o computador permanecia ligado, baixando pornografia, e o elevador havia chegado no andar.

    Vinil e Tom entraram. Na pequena tela que ficava sobre a porta, eles podiam ver as noticias do dia.

    “Grogheton ganha o ultimo jogo do campeonato estadual por 12 x 0”

    Isso não surpreendeu Vinil.

    “Michael Martini prestou depoimento na 15 DP sobre seu envolvimento no Dossiê Paulinho.”

    Tom e Vinil acharam o nome familiar, mas não comentaram nada sobre isso.

    “Lothmed informa que carregamento roubado na ultima quinta-feira já foi encontrado.”

    E então o elevador chegou ao térreo.


    “Você viu pra onde o cara pelado foi?” – Perguntou Vinil ao porteiro, que tirou o headphone e apontou a direção.

    “Obrigado” – Disse Vinil.

    “Maconheiros..” – Comentou o porteiro, baixinho, enquanto eles iam embora.

    “Por que estamos seguindo ele, afinal?” – Perguntou Vinil.

    “Sei lá, pense em algum motivo e depois me diga.” – Respondeu Tom, enquanto corria.





    Uma esquina e meio quarteirão dali, Clever corria. Percebera que estava nu havia pouco tempo, mas achou que não era um bom momento pra se preocupar com isso. Tentou chamar alguns táxis, mas ninguém queria parar.

    ”Será que é porque eu sou negro?” – Pensou ele, e então se lembrou de que não era. D-Dog havia dito isso na série, e Clever achou que seria um bom momento pra pensar nisso. Riu consigo mesmo, e lembrou que não deveria estar fazendo isso.

    Já estava cansado de ficar esquecendo e lembrando das coisas ultimamente, e de correr nu pela rua também. Subitamente, encontrou uma loja de tecidos. Entrou, pegou uma toalha qualquer e saiu correndo.

    Preferia ser preso por roubar aquilo do que por andar nu na rua.

    Enquanto isso, Tom passou correndo por Mel, que estava indo embora. Vinil parou e perguntou se ela havia visto Clever passar por ali, mas fez isso só por educação, já que Tom não havia cumprimentado ela.

    Ela o beijou.

    “Por que você fez isso?” – Perguntou ele, surpreso.

    “Pra ver se aquele idiota notava!” – Respondeu ela, enfurecida.

    “Ah..Bom.você tem meu numero, né?” – Disse Vinil, mas ela o olhou com aquele olhar que poderia tanto significar “Saia da minha frente” quanto “Vá a merda”, e deu as costas.

    Vinil correu atrás de Tom.

    Viraram numa esquina e passaram por um vendedor que gritava sobre um homem nu ter lhe roubado, e sabiam que estavam na direção certa.

    Clever, que havia acabado de virar outra esquina, repetia mentalmente o local para que estava indo.

    “Clive Barker Street, n°616” – Dizia ele em sua mente.
    “Clive Barker Street, n°616” – Repetia ele.
    “Clive Barker Street, n°616” – Continuava, pra quem quisesse ouvir. É claro que ninguém ouvia, já que ele não estava realmente falando.

    “Clive Bark...” – E ele foi interrompido por um cachorro, que vinha correndo na direção oposta.

    Ambos se esbarraram e Clever, de maneira improvável, acabou batendo numa lata de lixo, que o levou a tropeçar para o lado e ir a direção a uma escadaria.

    Após uma descer os degraus de uma maneira não aconselhável, acabou caído no chão, na rua Clive Barker, na frente de uma loja de roupas.

    Resolvendo que não era o melhor momento para desafiar o destino, Deus ou o universo(se é que algum deles realmente existia) entrou nela e fazer algumas compras.

    Com a ajuda do computador da loja, fez uma transferência bancaria para a conta do atendente, e não é preciso nem falar o porque de Clever ter levado mais do que o tempo necessário pra fazer isso e, sem querer, adicionado dois zeros a mais.

    Saiu da loja, e foi procurar o prédio 616.

    “Malditos drogados..” – Disse o atendente, que depois agradeceu, vendo o quanto ele havia depositado em sua conta.


    Perto dali, Tom e Vinil tentavam entender o que o cachorro chamado Judas queria lhes contar.

    “Ele é um cachorro inteligente, com um chip no cérebro." – Explicava Vinil, ao olhar a coleira, que além de dizer o nome dava outras informações sobre o animal e seu dono.

    “Judas Dançarino” – lia Vinil. – “E seu dono aparentemente se chama Monsterkill Godof Warchief Fromhell, mas acho que isso é algum tipo de brincadeira.”

    “Isso não importa, cara.” – Falou Tom.

    “Eu acho que esse cachorro quer nos dizer algo.” – Disse Vinil.

    De fato, ele queria. Estava levantando a pata e batendo-a no chão, dizendo alguma coisa em código Morse, mas nenhum dos dois sabia identifica-lo. Quando o cachorro notou que eles não entendiam, começou a falar em código Morse o quão estúpidos os dois humanos eram.
    Claro que ele não tinha uma opinião própria a respeito disso nem nada do tipo, mas havia sido pré-programado pra achar, ou pelo menos afirmar, isso caso não respondessem ao código.

    Quem quer que o tenha programado, possuía senso de humor.

    Começou então a apontar o focinho em direção a escadaria, e eles finalmente entenderam. Desceram-na, e o cachorro os acompanhou, satisfeito.

    Era uma pequena rua sem saída, cercada por prédios pequenos e algumas casas.

    O que chamava mesmo a atenção em relação ao local, que tinha certo ar de filme de terror, era que além de ter uma pequena loja de roupas chamada Pozzer’s, possuía também uma floricultura chamada Potterson & Mr. Weed, que fez Vinil se perguntar como é que não haviam fechado o local ainda. Também havia um prédio de 5 andares com uma grande placa luminosa que dizia Krillll23rt5,

    Clever já estava os observando por alguns segundos, e foi obrigado a acenar para que eles o reconhecessem, já que não estava pelado como antes;

    “Ele está.. ali. .. acenando pra gente?” – Perguntou Vinil, intrigado.

    “É o que parece.” – Disse Tom, e tendo em vista que Judas parecia ir à direção de Clever, poupou seu cérebro do trabalho de tentar entender a situação e apenas o seguiu.

    “Ei, amiches!” – Dizia Clever, animado.

    “Amiches? AMICHES??” - Gritava Vinil, nervosamente, enquanto se aproximava. – “Você mente pra gente e quando vamos pedir explicações simplesmente sai correndo nu? Nos fez vir ate aqui e agora quer começar esse papo de amiche? Vai se foder, porra!!”

    Tom nunca havia visto Vinil daquela maneira, mas sabia que ele iria explodir mais cedo ou mais tarde.

    Resolveu que o melhor a se fazer naquela situação era dar um soco em Clever, e assim o fez.
    Vinil o acompanhou, dando um desastrado chute na perna do “amiche”.

    “Calma, amiches!!” - Dizia ele, se equilibrando. “Venham comigo, e eu explico tudo!”

    “Nada disso” – Ordenava Vinil, sentindo o seu pé doer. – “Você teve a sua chance de explicar, e saiu correndo. Quase matou a Senhora Mcseiláoque e nos arrastou até aqui!!”

    “Mas é que vocês tinham que vir aqui, senão não iam entender. Eu tinha um plano, sabem. Venham comigo, e eu prometo que tudo vai fazer sentido, ou algo muito próximo disso.” – Dizia Clever.

    Antes que alguém socasse alguém novamente, Judas Dançarino se levantou em apenas duas patas e começou a dançar.

    “Hora, vamos parar com a putaria?” – Disse um homem, que vinha de dentro do pequeno prédio em que Clever estava querendo entrar.

    O homem vestia uma camisa sem mangas xadrez, em preto e cinza. Seus cabelos verdes eram cuidadosamente arrumados de modo para que parecessem desarrumados, e uma barba – também verde – começava a crescer em sua face.

    Vestia uma calça jeans azul escuro, com um cinto brilhante que claramente não servia pra segurar as calças. Usava chinelos pretos nos pés, com as unhas pintadas uma de cada cor do arco íris

    Já os dedos da sua mão esquerda eram pintados de pretos, e ela segurava uma flauta arredondada, que tocava algo que humanos não eram capazes de ouvir.

    “Cara da flauta!” – Disse Clever, animado. – “Preciso falar com o Dudu, agora!”

    Mas o cara da flauta não respondeu, apenas continuou a tocar seu instrumento, fazendo movimentos suaves, que o cachorro seguia enquanto dançava.

    Tom, apesar de achar o espetáculo interessante, não tinha tempo praquilo, e resolveu tomar alguma atitude.

    ”Escuta, eu já soquei dois caras hoje, e você não vai querer ser o próximo.” – Disse ele, se sentindo um personagem ruim de filme B.

    O homem continuou ignorando.

    “Você não vai bater nele, né? Ele não fez nada..” – Disse Vinil, baixinho.

    Tom não respondeu.

    “Ei, ei. Ninguém precisa bater em ninguém.” – Disse Clever, e tirou a bermuda.

    “Pra você” – Disse ele ao flautista, que parou de tocar e pegou a roupa.

    Primeiro cheirou-a, e depois sentiu a textura com as mãos.

    Abaixou-se e colocou-a no cachorro, que pareceu indiferente em relação a isso, mas pelo menos havia ficado mais bonito.

    “Certo, vamos.” – Disse ele. – “Eu sou Tostino, a quem interessar possa.”

    “Esses são Tom e Vinil, eu sou Clever, caso você não lembre.”

    “Mas que porra toda é essa?” – Comentou Vinil com Tom.
    “Um cachorro que dança.” – Respondeu Tom, indicando que aquilo era a única certeza que tinha em sua vida. Cachorros podiam dançar.


    Os cinco(quatro humanos e um cachorro) entraram no prédio, atravessando uma velha porta giratória que não detectava metais, mas pelo menos ainda girava.

    Passaram por um pequeno corredor com paredes pichadas com diversas figuras que pareciam ter postas ali de forma aleatória. Até caricaturas de celebridades como Matthew Fox e Jimmmy Jogggo, juntamente do símbolo da Anarquia e o da maçonaria, sem falar do bico do Pato Donald.

    O flautista abriu uma grande porta de metal, que parecia destrancada, e eles subiram uma longa escadaria.

    Chegaram a outra porta, com uma daquelas pequenas passagens de cachorro embaixo.

    Judas entrou, e Tostino aguardou até ouvir um latido para abri-la.

    Entraram em uma grande sala, cheia de copinhos descartáveis com água.

    “Pra que serve isso?” – Perguntou Vinil, mas ninguém respondeu.

    Chegaram ao outro extremo da sala, que possuía outra porta. Ela era feita de espelhos, que refletiam a imagem do grupo.

    Não havia nenhum buraco nem maçaneta nela.

    “Como é que se passa nisso?” – Perguntou Vinil.

    Ninguém respondeu.

    ”Cara, já passou da hora de começarem a responder algumas perguntas..” – Disse Tom, começando a se irritar.

    “Ninguém responde porque ninguém realmente sabe.” – Disse Clever.

    Judas se aproximou da porta, e deixou sua coleira refletir. Uma rápida luz vermelha saiu dela, e a porta se abriu para dentro, automaticamente.

    Eles entraram. Novamente, mais um quarto. Era pequeno e fedia a algas. Havia uma pequena escada de madeira, que levava para cima, numa abertura no teto.

    Quando Tom se preparava para subir, foi alertado por Clever.

    “Não é ai não, Amiche.”

    Judas empurrou com o focinho outra porta, feita de madeira, sem maçanetas.

    Mais um quarto. Tom jurou que, caso visse outra porta, iria começar a dar socos. Socar parecia ser a solução pra maioria dos seus problemas naquele dia. Menos o que realmente importava, Mel.

    Pra sorte de Clever, não havia outra porta, e sim uma passagem. Com uma escadaria que levava pra baixo.

    Eles desceram, por alguns minutos, e o local inteiro era mal iluminado.
    Quando finalmente chegaram ao final da escadaria, notaram que o piso era feito do mesmo material que a tela de um computador, mas aparentemente reforçado para suportar tanto peso. Exibia diversas imagens aleatórias, que não faziam sentido para Tom, Vinil ou Clever.

    Um homem careca, extremamente magro, com uma enorme barba branca, cumprimentou eles.

    “Hey Yo!” - Disse ele, da sua cadeira, que ficava grudada na parede.

    A cadeira era grande e reforçada, coberta de aparelhos eletrônicos e tubos.

    “O que é isso?” – Perguntou Vinil ao flautista, mas então notou que ele não estava mais ali. – “Aonde foi o Tostino?” – Perguntou então.

    “Deve ter se separado na escadaria escura. Não se preocupem, é assim que as coisas funcionam.” – Disse Clever.

    “Quem é esse velho, então?” – Perguntou Tom.

    “Hey Hey! Vocês estão atrapalhando a imagem, sentem-se aqui em cima, comigo, e eu lhes conto uma história ou duas.” – Disse o velho.

    Tom, Vinil e Clever, com a ajuda de degraus embutidos na parede, subiram até um tipo de poltrona que se fixava próxima ao teto, ao lado da cadeira do velho, e se prenderam com cuidado para não cair.

    Judas, que ainda estava ali, ainda não havia saído da escadaria escura, e permanecia nas sombras.

    “Então, então. Muito bom.” – Começou o velho, sem tirar os olhos da grande tela.. – “Cleve, você aqui de novo?”

    “É. Preciso falar com o Dudu.” – Respondeu, meio encabulado.

    “Hey Hey, sem problemas, pelo menos da minha parte. Quem são seus amigos?”

    “Esses é Vinil, espertinho metido a sabe tudo, que quer ficar rico a custa de drogas, e o mais rabugento é Tom, que já me deu um soco e que tem uma namorada gostosa.” - Contou Clever.


    “Certo, certo. Me responda uma coisa, então.” – Disse o velho, ainda sem tirar os olhos da tela.

    “Pode falar, amiche.”

    “Por que você está com o pênis de fora?”

    “Longa história.” – Respondeu Clever.

    “Hey hey! Quem sou eu para julga-lo, né? Opa, viram isso?”

    Ninguém entendeu.

    “Ah, é claro que não viram. Observem as imagens, pessoal.”

    Os três olharam as imagens, que eram exibidas em todo o chão, como se tudo fosse uma televisão gigantesca.

    Imagens eram exibidas sem parar. Vinil achou que deveria ter algum código ou significado secreto sendo mostrado naquelas imagens, Tom pensou na possibilidade de ser algum programa de lavagem cerebral, mas Cleaver teve certeza de que era só alguém passando pelos 671 canais da tv digital, um a um, sem parar.

    “Bom, bom. Vamo explicar aos novatos:

    Desde os 12 anos de idade eu estou na frente dessa ou de alguma outra tela. Passo a maior parte dos meus dias observando os fatos, as noticias e as mentiras. Junto tudo isso, e formo algumas conclusões. Assim, consigo opinião formada sobre os mais diversos assuntos.

    Bom, mas isso não passa de besteira. Não adianta analisar isso tudo com o cérebro humano. É bem mais fácil usar um computador pra pensar pra você, ou tirar conclusões precipitadas, ou fingir qualquer merda. Não vale nem a pena falar sobre isso, sinceramente.

    Então. Tem gente que só acredita no que vê na televisão ou na internet, e tem gente que se nega a acreditar em qualquer coisa que for dita pelos meios de comunicação.

    Ambos estão errados, porque não utilizam a filtragem. A filtragem é algo que um computador não pode fazer. É, basicamente, pegar um pedaço de uma pizza de calabresa, comer um pouco, e depois acreditar que é quatro queijos.

    É moldar a sua realidade.

    Bom, isso também é besteira. Todas as pessoas fazem isso, e é por isso que ninguém se entende no mundo de hoje. “


    Tom, Vinil e Clever não acharam tudo aquilo um tremendo papo furado, mas também não tinham certeza de que haviam entendido algo.

    “Hey, hey. É claro que vocês não vão compreender, e eu sei porque.” – Continuava o velho.

    “Não que sejam burros, é que já foram programados pra acreditar em certas coisas. Mas não devo falar sobre isso, não é o meu papel abrir os seus olhos, pois os meus nunca se abriram.”

    “O fato é que eu sou um cara muito solitário, e a maior parte do meu tempo é gasto observando seqüências de imagens e tentando descobrir alguma coisa a partir delas.”

    “Não converso muito, embora goste, e por isso não sei me expressar. Talvez algum dia eu até tenha sido capaz de expor minhas idéias, mas o fato é que eu acabei desaprendendo a fazer isso, ou então as minhas idéias atuais são complexas demais pra serem descritas com palavras. Acho que é uma mistura de tudo isso e muito mais.”

    “Sinto muito que, após tanto tempo de vida e de ter aprendido tanto, não vou ser capaz de passar nenhum conhecimento útil para alguém. “

    “É realmente uma pena.”

    “Mas já que vocês estão aqui, me façam um favor. Levem isso até o homem que procuram.”

    O velho apertou um dos vários botões em sua cadeira, e um pequeno cartão de memória foi ejetado. Ele entregou a Clever, e falou:

    “Tenho certeza que vocês tem muitas duvidas e que a vida não lhes faz muito sentido, mas acreditem:

    Não serei eu quem irá explicá-la.”

    E então ele fechou os olhos e parou de assistir, para sempre.


    A televisão agora não mudava mais de canais, e estava sintonizada em um canal que, no momento, exibia Mixhos.

    “É hora de parar com as drogas!” – Dizia D-Dog no telão, enquanto atirava em alguns traficantes, para depois roubar suas drogas e revende-las mais caro ainda.

    Logo em seguida, a imagem sumiu, e a sala ficou escura.

    “Esse é, definitivamente, o dia mais estranho da minha vida.” – Comentou Vinil.

    “Então se prepare, porque vai ficar bem pior.” – Explicou Clever, enquando se desamarrava e voltava ao chão.

    “Agora é sério, Cleveren. Conte-nos que merda de lugar é esse e o que estamos fazendo aqui.” – Disse Tom.
    “Ok, ok. Eu, minha humilde pessoa, conhecido como Cleveren, Clever para os amigos, após uma noite em que o uso de..”

    “Sem enrolar, cara.” – Disse Tom.

    “Certo, amiche. Bom, eu fiquei doidão, e realmente não lembro muito bem de nada, nem o porque de eu ter dado minhas calças a um cachorro. O fato é que eu estou com problemas, e não sei como me explicar. Por isso, tive que vir aqui. E vocês não acreditariam em mim, portanto tive que traze-los comigo de uma maneira estranha, mas aparentemente eficiente.” – Explicava Clever.

    “E que merda de lugar é essa?”

    “Bom, é aonde fica Dudu, um cara que sempre conseguiu resolver meus problemas, e deve conseguir explicar aonde eu consegui o Outsprite melhor do que eu mesmo. Sabe como é, meu cérebro as vezes não funciona como eu gostaria que funcionasse. Agora, se me permitem, acho que acabei de usa-lo excessivamente.”

    E então desmaiou.

    “Nossa, cara. O velho morreu mesmo.” – Disse Vinil, assustando-se enquanto descia.

    “É.” – Comentou Tom. Deve ser mais um daqueles descartáveis.

    “E Clever desmaiou? Que bosta. Mas acho melhor voltarmos, essa sala não parece ter saída.”

    Assim que a frase foi dita, Judas apareceu. Latiu levemente, e uma passagem se abriu na parede.

    Achando que aquele, definitivamente, não era o melhor dia para questionar qualquer coisa, Vinil e Tom atravessaram, carregando Clever nas costas.

    Era um elevador, com paredes, teto e chão negros. Só havia um botão, e eles apertaram-no.

    Não conseguiram notar se estavam subindo e descendo, e após cerca de um minuto e meio, as portas se abriram novamente.

    Saíram, e agora estavam em uma gigantesca sala, que parecia ter sido pintada por dezenas de latas de tinta das mais diversas cores, que haviam sidos jogadas contra as paredes, o chão e o teto de maneira aleatória.

    No meio, havia uma cadeira. Observando com cuidado, podia-se notar que havia um homem ali, sentado nela, de costas.

    Subitamente, a cadeira virou, e tanto Vinil quanto Tom viram que havia apenas um boneco sentado nela.

    “É mais ou menos nessa parte que vocês largam Cleveren no chão.” – Disse alguém atrás deles, e de fato, eles o deixaram cair.

    “Quem é você? Mais um dos malucos? – Perguntou Vinil, já cansado de tudo aquilo.

    O homem não respondeu, apenas se abaixou, tirou algo do bolso e colocou perto do nariz de Clever, que imediatamente despertou.

    “Oh” – Disse ele.

    “Oh” – Repetiu o homem, como um cumprimento.

    “Dudu!” – Gritou Clever, exibindo um grande sorriso enquanto se levantava.

    O homem que havia sido chamado de Dudu tinha um longo cabelo, castanho, com algumas mechas loiras, brancas, roxas e verdes. Usava óculos escuros com aros brancos, e exibia um leve sorriso, que não parecia significar nada.

    Vestia também um paletó branco, de mangas curtas. Por baixo, uma camisa preta, com algumas argolas de metais presas as mangas compridas. Havia um anel em cada uma de suas mãos, cada um de um mineral, dos mais valiosos até os mais comuns. Usava luvas de couro que não cobriam os dedos, que tinham unhas roídas.

    Seu cinto possuía várias coisas amarradas, desde chaves estranhas até pequenos compartimentos.

    Sua calça jeans preta era cheia de faixas de couro, que pareciam ter sido colocadas ali sem motivo aparentemente. Seus pés estavam descalços, e as solas eram terrivelmente sujas.

    “Dudu...” – Disse o homem, sem eliminar o seu leve sorriso. – “É, talvez.”

    “É.. Isso ai, amiche!” – Disse Clever, meio tonto.

    “Bom, eu sei que você tem algo para mim.” – Disse ele, olhando para Cleve.

    “É, é verdade. Pegue, o velho da sala de televisão que mandou.”

    E então entregou o objeto quadriculado.

    “É, ele morreu. De novo.” – Disse o homem.

    Um silencio constrangedor tomou a sala, mas ele não parecia se importar.

    “Antes de qualquer coisa, é melhor que arranjem um jeito melhor de me chamar. Dudu não é aceitável nessa época do ano.”

    “Certo, que tal Kojiji?”- Disse Clever, aleatóriamente.

    “Japones demais” – Disse o homem.

    “Cara Estranho?” – Sugeriu Vinil.

    “Obvio demais, mas boa tentativa.” – Respondeu ele.

    “Vai tomar no cu e para de enrolar, caralho?” – Disse Tom, que realmente não estava em um bom dia.

    “Longo demais.” – Disse o homem, com seu sorriso calmo.

    “Amiche?” – Sugeriu Clever

    “Pode ser. Amiche, então, pelo menos por enquanto.”

    “Ótimo, amiche! Agora, eu preciso que você..”

    “Não, antes disso, vamos a um local mais agradável.”

    Amiche os levou até perto da cadeira e do boneco, e lhes mostrou um alçapão. Abriu ele, e eles desceram uma escadaria.

    No fim dela, havia mais uma porta. Ela foi aberta, e eles viram o mar.

    Havia uma pequena rampa, e eles observaram o local:

    Era uma grande formação rochosa, perto de uma praia, e a rampa ficava a exatamente 10 metros do mar, no meio do paredão.

    Amiche sentou na borda, e os outros o acompanharam.

    Ele retirou de um de seus vários compartimentos um pouco de alguma erva, que tinha um cheiro parecido com maconha, mas nenhum dos três podia afirmar isso com certeza.

    Enquanto olhava para o horizonte, Amiche separava a parte boa para o consumo, jogando as partes ruins para o vento. Rapidamente, já havia terminado o trabalho. Pegou um pedaço de papel extremamente fino e colocou tudo ali dentro. Enrolou rapidamente com maestria, colocou na boca e acendeu.

    A fumaça e o cheiro eram suaves, mas todos inalavam, querendo ou não.

    Ele puxou a fumaça por cerca de 30 segundos e, sem solta-la, ofereceu o fumo a Clever, que aceitou na hora.

    Tragou, segurou e soltou. Em seguida passou para Tom, que fez o mesmo. Vinil foi o ultimo, e assim que soltou a fumaça tossiu um pouco.

    “Que erva é essa?” – Perguntou Clever, começando a sentir os efeitos em seu corpo.

    “Esse é um fumo que mistura uma maconha que é plantada há milênios por uma pequena comunidade na China, misturada com uma outra que foi geneticamente modificada para aumentar em dez vezes o THC e a sua qualidade. Também existem outras coisas na mistura, mas vocês podem ouvir sobre isso em outro momento.” – Disse Armiche, e enquanto falava, a fumaça saia da sua boca, lentamente, de modo que ela só acabara quando ele havia terminado de falar. – “Ah, e caso vocês se importem, em nenhuma parte desse longo processo, que envolve desde a plantação até o momento em que o produto chega em minhas mãos, o tráfico e o crime organizado foram beneficiados. “

    “É.. “ – Começou Clever, mas parou para pensar sobre aquilo e tentar formular a frase em sua mente. Não conseguiu, e deu uma leve risada. Já estava chapado.

    “A gente está faz um tempão nessa..” – Tentou explicar Vinil, mas sua mente também estava confusa, e ele não conseguiu terminar a frase.

    Tom ia tentar explicar tudo, mas não conseguiu nem começar a falar.

    “Não tem problema. Eu não perguntei nada. Sei exatamente o que querem.” – Disse Amiche, aparentando não ter sido afetado pela erva. Deu outra tragada, e voltou a falar. – “Um certo homem, chamado Nekrops, juntamente com um grupo de revolucionários, roubou um carregamento de uma empresa chamada Lothmed.”

    Voltemos mais um pouco no tempo: A Lothmed era uma pequena indústria farmacêutica, um pequeno peixe em meio aos tubarões, e por isso precisava criar algo grande.

    Depois de várias tentativas falhas e de fazerem coisas que eu tenho certeza que vocês não estão interessados em fazer, eles conseguiram produzir a H2Objective.

    Faz algum tempo desde que foi lançada, e apesar de ter sido amplamente divulgada pela mídia, jamais foi lançada comercialmente.

    Era, basicamente, uma água com cheiro e gostos de morango ou abacaxi. Você a ingeria, e segundo as instruções, deveria pensar fortemente no seu objetivo.

    Então, a partir daí, de alguma forma que eu não compreendo inteiramente, aquilo ficava martelando em sua mente, como uma música ruim.

    Mesmo se você não estivesse pensando sobre o que havia considerado seu objetivo no momento do consumo do h2Objective, aquilo estaria na sua mente, no seu subconsciente.

    Praticamente todos os seus atos do dia a dia seriam voltados no cumprimento daquele objetivo, mesmo se você não percebesse.

    Seus sonhos seriam sobre aquilo, e seus pesadelos também.

    Os problemas começavam a surgir quando as pessoas se arrependiam de querer aquilo, ou simplesmente mudam de idéia quanto ao que querem da vida.

    Então, tirando longas sessões de hipnose e drogas ainda mais fortes, não havia nenhum método eficiente para negar os efeitos do h2objective, e eles provavelmente durariam pelo resto da sua vida.

    Antes que os processos jurídicos começassem a aparecer, eles resolveram cancelar o produto para fins domésticos, mas boa parte dele caiu “acidentalmente” no mercado negro ou foi vendida para alguma grande empresa.

    Enfim, a quantidade de pessoas interessadas na pequena Lothmed cresceu rapidamente, e muitos investidores surgiram.

    Alguns queriam era algo parecido, só que comercialmente viável para as massas, sem tantos efeitos colaterais.

    Outros queriam uma versão mais potente da droga, para fins militares. Motivar os soldados e coisas do tipo.

    Em meio a tanta pressão e dinheiro, a Lothmed cresceu. Firmou-se como uma poderosa marca, sinônimo de qualidade e inovação no mercado farmacêutico.

    Ainda assim, faltava algo tão grande e insano quanto o H2Objective.

    Foi ai que eles começaram a trabalhar no Outspire, alguns meses atrás.

    É incrível como o dinheiro e armas apontadas para membros da sua família podem fazer você trabalhar rápido.

    Um dos carregamentos da versão experimental da droga, que estava indo para o centro de testes, foi atacado pelo grupo FKR, liderado por Nekrops, uma figura conhecida que sempre aparece na mídia.

    Aparentemente, eles confundiram o carregamento, e após perceberem que eram “apenas drogas experimentais”, resolveram ganhar dinheiro com elas.

    Em algum momento, uma parte do carregamento acabou parando no Porto Livre.

    E Cleveren, em uma de suas visitas mensais a um dos vários oráculos da cidade, sob o efeito das mais diversas substancias, fazia perguntas sem sentido.

    Ele estava perdido, e fora de si. Queria saber o motivo das coisas mais simples, como se tivesse uma percepção delas diferente da de todos os outros.

    Eu cumpri meu papel, e esclareci a maioria de suas duvidas.

    Em certo momento, após fazer as perguntas corretas, eu lhe informei sobre tal droga. Ele imaginou que fosse uma boa idéia gastar quase todo o seu dinheiro com ela, e assim o fez.

    Enquanto voltava para a cidade, após tomar algumas das pílulas, ele teve várias idéias geniais.

    Uma delas, eu suponho, envolvia entregar o pacote a vocês e, com as três mentes inspiradas, pensar em algo genial o suficiente para trazer fama e fortuna a todos.

    Isso, no caso, seria uma idéia inspirada em uma mente nublada e confusa como a de Cleveren.


    Basicamente, o Outspire é uma fonte de criatividade. Sob o efeito de poucas pílulas, alguém se torna mais apto a produzir idéias e conceitos mais facilmente. Só que a grande genialidade por trás do produto é que ele não apenas faz a pessoa se inspirar, como também se expressar. Pra falar a verdade, misturaram alguns efeitos bons de certas drogas famosas, só que com menos efeitos colaterais.

    Enfim, ainda é uma versão de testes, mas seus efeitos básicos estão ali. Você toma certa quantidade e começa a ter idéias e uma incrível necessidade de mostra-las ao mundo. Só que, dependendo da dosagem, as inspirações podem vir na forma de alucinações ou sonhos misteriosos. É uma genialidade temporária, e para compreender a verdadeira capacidade do seu cérebro você não pode estar sob o efeito de outras drogas.

    O que acredito é que provavelmente vocês misturaram, e por isso tiveram efeitos estranhos. O fato é que o Outspire é caro e o carregamento no Porto Livre deve estar perto do fim. Eu diria que para mim é uma forma de dizer "Sou NÉRDYZ e não gosto de cigarro, mulher e cerveja".

    VAI PRA UM BAR SEU FILHA DA PUTA!!!
    VAI TOMAR "TOKO" DA MULHERADA ATÉ ENCONTRAR ALGUMA QUE QUEIRA DAR PRA VOCÊ!!!
    VAI DAR BEIJO NA BOCA!!!
    VAI ARRUMAR BRIGA NO FIM DA BALADA!!!

    SE VIRA FILHA DA PUTA!!!

    Beijokas
    Faço JOGUINHOS DE TEXTO AGORA, GRANDE EVOLUÇÃO DE PERSONAGEM:
    https://forum.choiceofgames.com/t/th...ed-15-05/26275

  • #2
    Bem surreal. Não é uma obra-prima, mas realmente achei legal!
    http://www.xfire.com/profile/turivol/

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    • #3
      Re: Como se drogar em um mundo pré-apocaliptico

      Postado originalmente por ZapeR[b
      ]“Popsfera.”[/b]

      “Que?”

      “Popsfera. É assim que eu vou batizar a esfera de informação e cultura pop que constantemente se manifesta no imaginário popular. É genial.”
      Vocês ZOAM mas ADOGAM esse termo que eu uso não??

      Beijokas

      Canibal
      PROTOCOLO: A ORDEM foi impressa e está sendo vendida. APENAS ACEITEM!!!

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      • #4
        Re: Como se drogar em um mundo pré-apocaliptico

        Postado originalmente por CANIBAL!!!
        Postado originalmente por ZapeR[b
        ]“Popsfera.”[/b]

        “Que?”

        “Popsfera. É assim que eu vou batizar a esfera de informação e cultura pop que constantemente se manifesta no imaginário popular. É genial.”
        Vocês ZOAM mas ADOGAM esse termo que eu uso não??

        Beijokas

        Canibal
        Nunca zoei não

        Adoro esse termo, uso em tudo na minha vida

        Faz MUITO sentido.
        Faço JOGUINHOS DE TEXTO AGORA, GRANDE EVOLUÇÃO DE PERSONAGEM:
        https://forum.choiceofgames.com/t/th...ed-15-05/26275

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        • #5
          Porra, você não se drogou no presente pra escrever isso não?
          ùltima Leitura: Razoável
          sigpic
          Mister No #6 (RECORD)

          http://www.tumblr.com/blog/ultimaleitura

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          • #6
            Este texto deveria ter sido postado em capítulos, para melhor compreensão.
            BEHOLD MY POWER

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            • #7
              Caralho, esses dias peguei essa merda pra ler e..

              PUTAKEPARIU

              deu até vergonha

              Fui obrigado a revisar o que eu tinha aqui no word e dar uma ajeitada no bagaço.

              Continua uma merda, mas é uma merda maior e com menos erros de portugues.

              beigos
              Faço JOGUINHOS DE TEXTO AGORA, GRANDE EVOLUÇÃO DE PERSONAGEM:
              https://forum.choiceofgames.com/t/th...ed-15-05/26275

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              • #8
                caralho, fumou o que?

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                • #9
                  Olá, Zapper! Muito boa a sua história! é intrigante e tem elementos futuristas bem legais! Além de ser uma crítica construtiva para a sociedade! Eu gostei sim! Parabéns, rapaz!!!!

                  abraço!
                  SHAZAM!!!!

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